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A polêmica do Morro do Moreno: quem tem razão no debate que tomou o ES?

Publicado em: 19/11/2025

Foto: Jackson Gonçalves

Por: Filipe Machado

 

O lançamento das obras de urbanização do Morro do Moreno movimentou o Espírito Santo e gerou uma onda intensa de debates. O projeto, anunciado pela prefeitura e pelo governo estadual, prevê pavimentação do acesso principal, construção de portaria, mirantes, sanitários, áreas de convivência e requalificação da trilha, com a promessa de tornar um dos cartões-postais capixabas mais acessível e seguro.

A repercussão foi imediata. Parte da sociedade viu o empreendimento como um marco para o turismo e para a inclusão social. Atualmente, idosos, pessoas com mobilidade reduzida e portadores de necessidades especiais não conseguem chegar ao topo. Para muitos apoiadores, um ponto turístico que não pode ser acessado por todos deixa de cumprir sua função pública. A urbanização seria uma oportunidade de ordenar o fluxo de visitantes, reduzir riscos e oferecer uma experiência segura e inclusiva.

Ao mesmo tempo, críticas surgiram com força. Ambientalistas e moradores questionaram o impacto das intervenções na área de proteção ambiental, ressaltando preocupações com supressão vegetal, alteração da paisagem e risco de descaracterização do morro. Outro ponto de tensão foi a discussão sobre a propriedade da área. Um grupo de proprietários reivindicou a posse e falam que não houve todos os estudos, uma decisão judicial determinou a paralisação das obras e a reabertura do acesso ao público, apontando que o início da intervenção representava ameaça aos direitos alegados pelos proprietários.

Com as obras suspensas, o debate ganhou contornos ainda mais profundos. De um lado, há a defesa de um turismo estruturado, seguro e acessível. De outro, a proteção ambiental e a necessidade de garantir que o processo seja conduzido com transparência, respeito à legislação e diálogo com os envolvidos. A população se dividiu entre quem teme que o morro perca sua identidade natural e quem acredita que a falta de ordenamento já causa, hoje, impactos mais graves do que uma intervenção planejada.

É nesse cenário que a engenharia tem papel central. Projetos bem conduzidos podem reduzir impactos, controlar processos erosivos, recuperar áreas degradadas e estruturar caminhos que hoje são improvisados e potencialmente perigosos. A urbanização não precisa significar destruição; pode ser uma ferramenta de preservação quando acompanhada de critérios técnicos, fiscalização e manutenção contínua.

A polêmica do Morro do Moreno expõe um dilema recorrente no Espírito Santo e em várias partes do país: como avançar sem perder o patrimônio ambiental que nos identifica. O desafio não é escolher entre desenvolvimento ou preservação, mas construir soluções que respeitem ambos. O morro é um símbolo afetivo dos capixabas e deve permanecer acessível, seguro e protegido.

A engenharia pode ser a ponte entre essas duas visões. Com estudos, diálogo, responsabilidade e clareza nos processos, é possível transformar o Morro do Moreno em um exemplo de que desenvolvimento e meio ambiente não são forças opostas, mas complementares. O futuro do morro deve refletir a maturidade de um estado que quer crescer sem abrir mão do que o torna único.

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