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Vibe Coding: quando cada empresa passa a ter o seu próprio software

Publicado em: 16/12/2025

Bruno Meneghel. Foto: Divulgação

Por: Bruno Meneghel, CEO da Unit

 

Durante décadas, a tecnologia empresarial seguiu um caminho previsível: grandes sistemas, grandes fornecedores e grandes contratos. Softwares robustos, cheios de funcionalidades, pensados para atender “todo mundo” — e que, justamente por isso, raramente atendem alguém de forma perfeita. Esse modelo está começando a ser questionado por um movimento silencioso, mas poderoso: o vibe coding, impulsionado pela inteligência artificial.

O termo ainda é novo, mas a ideia é simples. Em vez de adaptar o negócio a um software pronto, passa a ser possível criar softwares que nascem a partir da realidade, da linguagem e das necessidades específicas de cada empresa, área ou nicho. Sistemas moldados sob medida, desenvolvidos com apoio de IA, a um custo infinitamente menor do que no modelo tradicional.

E é justamente o custo que explica por que esse movimento tende a ganhar escala tão rapidamente.

Historicamente, criar um software personalizado exigia grandes times de desenvolvimento, longos ciclos de projeto e um esforço contínuo de manutenção. Hoje, com IA atuando como copiloto de programação, é possível atingir o mesmo resultado com equipes muito menores. Tarefas que antes demandavam vários desenvolvedores agora podem ser executadas por poucos profissionais altamente estratégicos, apoiados por modelos inteligentes que aceleram código, testes e ajustes.

Além disso, a infraestrutura deixou de ser um obstáculo. Serviços em nuvem estão cada vez mais acessíveis, escaláveis e simples de gerenciar. Não é mais necessário investir pesado em servidores, licenças complexas ou estruturas internas de TI. Plataformas cloud permitem que sistemas cresçam conforme o uso, pagando apenas pelo que é consumido, com segurança e estabilidade comparáveis às dos grandes players globais.

Esse novo cenário reduz drasticamente o custo total de criação e operação de softwares. E, quando o custo cai, o acesso se amplia.

Hoje, empresas como a SAP oferecem alto nível de personalização em seus ERPs. Mas essa flexibilidade vem acompanhada de projetos longos, consultorias especializadas e contratos caros, muitas vezes inviáveis para pequenas e médias empresas. O mesmo ocorre com gigantes como a TransUnion, cujos motores de crédito são extremamente sofisticados, porém inacessíveis para boa parte do mercado.

O vibe coding quebra essa lógica ao permitir que empresas construam soluções específicas para seus próprios problemas, sem precisar comprar pacotes inflados com funcionalidades que nunca serão usadas. Em vez de pagar por uma plataforma genérica, cria-se um sistema sob medida, focado exatamente no que gera valor.

Na prática, isso significa que um varejista pode ter um sistema totalmente diferente de outro varejista. Que uma indústria pode operar com regras, indicadores e fluxos próprios. Que um RH pode usar uma plataforma alinhada à sua cultura e realidade local — e não a um padrão importado de grandes centros.

Aqui no Espírito Santo, esse movimento ganha um significado ainda mais relevante. Um estado marcado por empresas familiares, negócios regionais fortes, cooperativas, indústrias e um ecossistema empreendedor em crescimento. Para essas organizações, tecnologia sempre foi vista como algo caro ou distante. O vibe coding muda essa percepção, permitindo que empresas capixabas criem soluções digitais tão eficientes quanto as de grandes corporações, mas com orçamento, ritmo e identidade próprios.

O impacto nos negócios é profundo. A barreira de entrada para criar produtos digitais despenca. Soluções que antes só grandes empresas conseguiam pagar passam a ser acessíveis. Isso aumenta drasticamente a concorrência em praticamente todos os segmentos. Quem antes competia apenas com empresas do mesmo porte, agora concorre com ideias melhores, processos mais eficientes e softwares mais inteligentes.

Não significa o fim dos grandes players, mas representa uma ameaça real ao modelo atual. O valor deixa de estar apenas no software em si e passa a estar no conhecimento, na estratégia e na capacidade de resolver problemas específicos. O diferencial não será mais “ter um sistema”, mas ter o sistema certo.

Estamos caminhando para um cenário em que cada empresa poderá, literalmente, operar sobre sua própria tecnologia. Mais barata, mais personalizada e mais alinhada à sua realidade. O vibe coding não é apenas uma tendência técnica. É uma mudança estrutural na forma como negócios são geridos, criados e escalados.

E, como toda grande mudança, ela não pede permissão. Ela simplesmente acontece.

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