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Por: Filipe Machado
Durante anos, ouvimos que o Brasil formava engenheiros em excesso. Faculdades se multiplicaram, cursos se expandiram e milhares de profissionais receberam seus diplomas. A leitura superficial sugeria sobra de mão de obra. Mas quem vive o mercado real sabe que o cenário atual é exatamente o oposto. O Brasil já enfrenta escassez de engenheiros, e o problema está apenas começando.
À primeira vista, a conta não fecha. Se tantos profissionais se formaram nos últimos 10 a 12 anos, por que hoje as empresas enfrentam dificuldade para contratar?
A resposta está na trajetória após a formação. Uma parcela significativa dos engenheiros recém-formados não encontrou estrutura de crescimento nos primeiros anos de carreira. Salários iniciais pouco atrativos, ausência de planos de desenvolvimento profissional e baixa integração entre academia e mercado fizeram com que muitos migrassem para outras áreas, como tecnologia, mercado financeiro, vendas, concursos públicos ou empreendedorismo fora da engenharia.
Depois de alguns anos fora do setor, a maioria não retorna. O investimento em formação se perde, e o mercado técnico deixa de contar com esses profissionais.
O resultado é claro no dia a dia das empresas.
Há escassez de engenheiros juniores disponíveis para contratação.
Profissionais plenos estão sendo disputados entre empresas.
Engenheiros seniores escolhem onde e como atuar, e muitos optam por trabalhar de forma independente.
O número de estagiários caiu, reflexo direto da redução de ingressantes nos cursos de engenharia.
O que antes era uma previsão hoje é realidade. Há dificuldade concreta para montar equipes técnicas completas.
Se nenhuma ação for tomada, em dois ou três anos a situação será significativamente mais crítica.
É comum ouvir que a inteligência artificial substituirá os engenheiros. Essa visão ignora a natureza da engenharia praticada no Brasil.
A engenharia não acontece apenas em escritórios e softwares. Ela acontece no canteiro de obras, na vistoria técnica, na interface com fornecedores, instaladores, clientes, equipes de execução e órgãos reguladores. Envolve responsabilidade técnica, tomada de decisão sob risco, liderança de equipes e solução de problemas em ambientes físicos reais.
Cidades, indústrias, infraestrutura, saneamento, energia, edificações e mobilidade urbana não se constroem sem engenharia aplicada. Não há desenvolvimento sem engenharia forte.
A tecnologia é ferramenta. O conhecimento técnico e a responsabilidade profissional permanecem insubstituíveis.
Outro fator central é o descompasso entre a legislação e a prática de mercado. O salário mínimo profissional do engenheiro existe, mas em muitos setores tornou-se apenas uma referência simbólica.
Enquanto essa distorção persistir, o início de carreira continuará pouco atrativo. Isso afasta novos talentos e desestimula a permanência dos recém-formados na área técnica.
Valorizar a engenharia passa necessariamente por remuneração compatível com responsabilidade e qualificação.
A escassez de engenheiros não será resolvida apenas pelo mercado. É necessária ação coordenada entre empresas, instituições de ensino, entidades de classe e setor público.
Implementação real de planos de carreira estruturados nas empresas de engenharia.
Programas de requalificação para engenheiros formados que hoje atuam fora da área.
Estímulo ao empreendedorismo técnico e à criação de negócios de engenharia.
Cumprimento efetivo do salário mínimo profissional.
Incentivo à formação de base em matemática, física e ciências, atraindo novos estudantes para a engenharia.
São ações que exigem visão estratégica. Quem se antecipar colherá vantagem competitiva nos próximos anos.
No curto prazo, alguns profissionais podem enxergar a escassez como valorização natural do mercado. No médio prazo, porém, a falta de engenheiros compromete a capacidade das empresas de crescer, executar obras, entregar projetos e sustentar o desenvolvimento econômico.
Não existe país desenvolvido sem engenharia forte.
O Brasil ainda tem tempo para reagir. Mas o relógio já começou a correr.