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O mercado está em falta de engenheiros. E quase ninguém percebeu

Publicado em: 22/01/2026

Foto: Reprodução

Por: Filipe Machado

 

Durante anos, ouvimos que o Brasil formava engenheiros em excesso. Faculdades se multiplicaram, cursos se expandiram e milhares de profissionais receberam seus diplomas. A leitura superficial sugeria sobra de mão de obra. Mas quem vive o mercado real sabe que o cenário atual é exatamente o oposto. O Brasil já enfrenta escassez de engenheiros, e o problema está apenas começando.

 

A contradição aparente

À primeira vista, a conta não fecha. Se tantos profissionais se formaram nos últimos 10 a 12 anos, por que hoje as empresas enfrentam dificuldade para contratar?

A resposta está na trajetória após a formação. Uma parcela significativa dos engenheiros recém-formados não encontrou estrutura de crescimento nos primeiros anos de carreira. Salários iniciais pouco atrativos, ausência de planos de desenvolvimento profissional e baixa integração entre academia e mercado fizeram com que muitos migrassem para outras áreas, como tecnologia, mercado financeiro, vendas, concursos públicos ou empreendedorismo fora da engenharia.

Depois de alguns anos fora do setor, a maioria não retorna. O investimento em formação se perde, e o mercado técnico deixa de contar com esses profissionais.

 

O efeito em cadeia

O resultado é claro no dia a dia das empresas.

Há escassez de engenheiros juniores disponíveis para contratação.
Profissionais plenos estão sendo disputados entre empresas.
Engenheiros seniores escolhem onde e como atuar, e muitos optam por trabalhar de forma independente.
O número de estagiários caiu, reflexo direto da redução de ingressantes nos cursos de engenharia.

O que antes era uma previsão hoje é realidade. Há dificuldade concreta para montar equipes técnicas completas.

Se nenhuma ação for tomada, em dois ou três anos a situação será significativamente mais crítica.

 

A engenharia que a inteligência artificial não substitui

É comum ouvir que a inteligência artificial substituirá os engenheiros. Essa visão ignora a natureza da engenharia praticada no Brasil.

A engenharia não acontece apenas em escritórios e softwares. Ela acontece no canteiro de obras, na vistoria técnica, na interface com fornecedores, instaladores, clientes, equipes de execução e órgãos reguladores. Envolve responsabilidade técnica, tomada de decisão sob risco, liderança de equipes e solução de problemas em ambientes físicos reais.

Cidades, indústrias, infraestrutura, saneamento, energia, edificações e mobilidade urbana não se constroem sem engenharia aplicada. Não há desenvolvimento sem engenharia forte.

A tecnologia é ferramenta. O conhecimento técnico e a responsabilidade profissional permanecem insubstituíveis.

Outro fator central é o descompasso entre a legislação e a prática de mercado. O salário mínimo profissional do engenheiro existe, mas em muitos setores tornou-se apenas uma referência simbólica.

Enquanto essa distorção persistir, o início de carreira continuará pouco atrativo. Isso afasta novos talentos e desestimula a permanência dos recém-formados na área técnica.

Valorizar a engenharia passa necessariamente por remuneração compatível com responsabilidade e qualificação.

 

Caminhos para reverter o cenário

A escassez de engenheiros não será resolvida apenas pelo mercado. É necessária ação coordenada entre empresas, instituições de ensino, entidades de classe e setor público.

 

Algumas medidas são urgentes.

Implementação real de planos de carreira estruturados nas empresas de engenharia.
Programas de requalificação para engenheiros formados que hoje atuam fora da área.
Estímulo ao empreendedorismo técnico e à criação de negócios de engenharia.
Cumprimento efetivo do salário mínimo profissional.
Incentivo à formação de base em matemática, física e ciências, atraindo novos estudantes para a engenharia.

São ações que exigem visão estratégica. Quem se antecipar colherá vantagem competitiva nos próximos anos.

 

Um alerta e uma oportunidade

No curto prazo, alguns profissionais podem enxergar a escassez como valorização natural do mercado. No médio prazo, porém, a falta de engenheiros compromete a capacidade das empresas de crescer, executar obras, entregar projetos e sustentar o desenvolvimento econômico.

Não existe país desenvolvido sem engenharia forte.

O Brasil ainda tem tempo para reagir. Mas o relógio já começou a correr.

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