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Guaramare: de Vicente a Maritza

Publicado em: 23/01/2026

Maritza Bojovski com o retrato de seu pai, Vicente. Foto: Divulgação

Por: Bianca Tápias

 

Há restaurantes que marcam uma cidade, outros que marcam uma geração, e existem aqueles, mais raros, que atravessam décadas como se fossem parte da paisagem emocional de um lugar, como o mar que nunca deixa de bater na areia de Guarapari, como o cheiro de maresia que entra pelas janelas, como a lembrança de uma mesa sempre heia.

O Guaramare nasceu assim: não como um projeto de negócios, mas como uma extensão direta da personalidade de Vicente Bojovski, um homem que saiu da Macedônia ainda jovem, atravessou o oceano trazendo pouco na mala e muito no peito, e encontrou no litoral do Espírito Santo o cenário perfeito para transformar sua história em comida, arte e hospitalidade.

Foi ali, de frente para o mar, que Vicente abriu seu restaurante e, sem saber, começou a escrever um dos capítulos mais importantes da gastronomia capixaba. Décadas depois, seu nome estaria entre os grandes da culinária do estado, e o Guaramare seria reconhecido como um dos melhores restaurantes de frutos do mar do Brasil, premiado, reverenciado, lembrado com respeito e saudade.

Mas nada ali seguia padrões. Não havia cardápio, não havia preços expostos e não havia distinção entre quem sentava à mesa. Vicente vinha de uma infância difícil, de pouco acesso e de muitas faltas. Talvez por isso acreditasse com tanta convicção que ninguém deveria escolher o que comer baseado no valor, mas apenas no desejo. Para ele, todos tinham o mesmo direito: sentar, escolher, comer bem e ser servido com generosidade.

O que chegava à mesa eram peixes e frutos do mar frescos, pescados da região, tratados com um cuidado quase reverencial, preparados com técnica impecável e temperos simples, pensados apenas para realçar o sabor das verdadeiras estrelas. Lagostas, peixe assado, mariscos, camarões – tudo acompanhado por uma adega conceituada, que conversava com a cozinha sem jamais roubar a cena.

O espaço, por sua vez, era um mosaico de conceitos estéticos. Obras de arte nas paredes, arquitetura pensada nos detalhes, objetos escolhidos com olhar de quem enxerga beleza onde quase ninguém vê. Vicente enxergava arte em tudo. Na comida, no vinho, na conversa, na maneira de servir, no modo de receber. Era artista plástico, e suas obras continuam espalhadas pelo restaurante e pela casa da família, como fragmentos visíveis de uma mente que nunca separou criação e vida.

 

A filha que cresceu entre mesas, panelas e histórias

Maritza Bojovski. Foto: Divulgação

Maritza Bojovski cresceu dentro do Guaramare. Cresceu observando o pai na cozinha, no salão, entre os convidados, sentando-se à mesa, bebendo com todos, conversando com desconhecidos como se fossem velhos amigos. Como Maritza conta, Vicente fazia questão que ela estivesse ao seu lado, que acompanhasse o serviço, que aprendesse desde cedo que um restaurante é feito de comida, mas também de gente. Ela servia, observava, escutava e absorvia.

Todos que passaram pelo Guaramare contam a mesma sensação: com Vicente, você se sentia em casa. Não havia distância entre anfitrião e cliente. Ele falava com todos, brindava com todos, ria alto, celebrava cada encontro como se fosse único.

Ele era a pessoa que celebrava a vida intensamente. Maritza aprendeu isso ali, no salão, entre taças e pratos. E repete até hoje com seus próprios filhos, Filipe e Clara, levando-os para perto das mesas, ensinando que hospitalidade não se herda – se vive.

Seu amor pelo pai se manifesta na preservação do restaurante, nas receitas autênticas, nas obras de arte que continuam ocupando paredes e corredores, como se Vicente ainda estivesse ali, observando tudo em silêncio.

 

Entre a cozinha e as telas

Formada em gastronomia, Maritza tem talento de sobra na cozinha, mas seu brilho maior está na comunicação. Com mais de 280 mil seguidores, conquistou um público fiel que acompanha seu trabalho, sua rotina e sua forma direta e carismática de falar sobre comida, memória e afeto.

Participou do Chefs de Alto Nível, da Globo, tornou-se jurada em programas de televisão estaduais e, agora, prepara-se para apresentar seu próprio programa. Um caminho que uniu duas paixões: gastronomia e comunicação. Ela gosta mesmo é das telas, de apresentar, de estar diante das câmeras. Um dom que salta aos olhos e que não se aprende – se nasce com ele.

 

Um legado que não se encerra

Com a morte de Vicente, o Guaramare fechou suas portas como restaurante em funcionamento regular, mas seu nome nunca deixou de circular. Permanece vivo na lembrança de quem viveu aquelas mesas, daqueles que ainda hoje falam do peixe assado perfeito, da lagosta impecável, do inesquecível sorvete de pistache.

Foto: Divulgação

Maritza abre o restaurante apenas em datas especiais, transformando cada noite em um acontecimento concorrido. Em 2025, um jantar harmonizado teve todos os lugares vendidos em questão de minutos. Agora em 2026, abriu a casa no dia 17 para Marcelo Falcão e
convidados e no dia 22, recebeu mais um grupo seleto, com lista de espera que dá pra preencher muitas próximas datas.

O Guaramare permanece como um dos grandes símbolos da gastronomia capixaba, onde tradição e memória caminham juntas. Mais do que um restaurante premiado, mais do que o título de melhor restaurante de pescados do Brasil, o Guaramare é o reflexo de um homem
que transformou sua própria história.

Vicente Bojovski não deixou apenas um endereço, deixou um jeito de viver, de servir e de celebrar, e Maritza segue ali, cuidando desse legado como quem cuida de uma herança viva – com respeito, orgulho e com a certeza de que algumas casas nunca fecham de verdade. Elas apenas aprendem a existir na memória de quem passou por elas.

Foto: Divulgação

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