Por Rodolfo Vidal
Durante muito tempo, cultura organizacional foi tratada como perfumaria corporativa. Algo “bonito de ter”. Um slide bem diagramado na apresentação institucional, uma página inspiradora no site, um manifesto cheio de palavras fortes, mas prática fraca.
Na realidade, cultura nunca foi estética. Cultura é estrutura. E, goste ou não, é um dos fatores que mais rápido levam uma empresa ao crescimento ou à ruína.
Cultura existe para proteger a empresa. Proteger o time, a energia, o ritmo e, principalmente, o futuro do negócio. E tudo isso começa por algo simples, mas que a maioria dos líderes evita enfrentar: saber exatamente o que você quer dentro da sua empresa e, principalmente, o que você não aceita de forma alguma.
Líder que não define limites culturais cria espaço para tudo. E quando tudo cabe, qualquer coisa entra. Gente desalinhada, comportamento tóxico, mediocridade disfarçada de “bom clima”. Nada disso aparece de uma vez. Vai entrando aos poucos, sempre com uma boa justificativa.
Existe uma crença perigosa no mundo corporativo de que tolerância é virtude. Não é. Em cultura organizacional, tolerância costuma ser covardia disfarçada de empatia e quase sempre é o primeiro passo para a ruína.
Nenhuma empresa quebra por dentro de uma vez. Ela vai cedendo aos poucos. Um comportamento aqui, outro ali. Uma exceção que vira regra. Um “deixa passar” que, sem perceber, vira padrão.
A tolerância cultural é silenciosa e extremamente cara.
No fim das contas, cultura não é o que você fala no onboarding. É aquilo que você aceita no dia a dia. Não o que você diz que valoriza, mas o que você tolera quando ninguém está olhando. Quando um líder permite comportamentos desalinhados porque “a pessoa entrega”, ele não está sendo estratégico. Está ensinando o time inteiro que aquilo é permitido. E comportamento permitido se replica.
Por isso, cultura precisa ser objetiva, clara e sem margem para interpretação. Não existe meio alinhado. Ou está alinhado, ou não está.
Essa clareza muda tudo. Muda quem entra na empresa. Muda quem cresce. Muda quem sai. Muda o que é reconhecido, o que é ignorado e o que é cobrado.
É aí que entra a conexão real entre cultura e performance.
Modelos como a OTE (On-Target Earnings, ou “Ganhos na Meta” em português) não são apenas estruturas de remuneração. São ferramentas culturais. Eles deixam explícito que esforço, entrega e recompensa caminham juntos. Sem subjetividade e sem discurso vazio.
Quando alguém sabe exatamente o que precisa entregar e quanto pode ganhar se fizer isso bem, o jogo muda. A conversa fica adulta. O protagonismo aparece. A vitimização some. O resultado vem.
A OTE não motiva apenas pelo dinheiro. Ele impõe justiça. E justiça, em qualquer cultura séria, é combustível.
Valorizar financeiramente quem entrega mais, é o mínimo. Tratar todo mundo igual, independentemente do impacto gerado, é injusto e uma das formas mais rápidas de matar a alta performance. Pessoas que puxam o time precisam sentir que vale a pena puxar.
Quando quem entrega mais recebe o mesmo que quem entrega menos, a mensagem é clara: não vale dar o seu máximo. Cultura forte protege quem constrói, não quem se esconde na média.
Mas não se engane: dinheiro sozinho não sustenta engajamento. Principalmente em um mundo acelerado, exposto e hiperconectado. Reconhecimento precisa ser rápido, direto e proporcional.
Reconhecimento atrasado é quase o mesmo que desprezo silencioso. Pessoas precisam sentir, no curto prazo, que estão no caminho certo. Que são vistas. Que importam de verdade.
E reconhecimento não é só dinheiro. É confiança, autonomia, responsabilidade, espaço e voz. É saber que você não é apenas um custo na planilha, mas parte da construção.
Ignorar isso abre espaço para outro erro clássico de liderança: tolerar pessoas culturalmente desalinhadas porque elas “entregam algum resultado” ou são tecnicamente competentes. Uma única pessoa assim é capaz de sugar a energia de um time inteiro. Reclama, contamina, desacredita, puxa para baixo. O dano raramente aparece de imediato nos números, mas sempre aparece no clima, no engajamento e na perda silenciosa dos melhores e consequentemente na queda da performance.
Talento sem cultura não é ativo. É passivo. Um passivo que cobra juros altos.
Mas nada disso se sustenta sem cobrança por evolução contínua. Crescer exige desconforto, ajuste, aprendizado constante. Evoluir não é opcional, é parte do contrato invisível de quem escolhe trabalhar em empresas que querem crescer.
O que não cabe é estagnação disfarçada de estabilidade, nem acomodação mascarada de lealdade. Empresas que crescem rápido precisam de pessoas que crescem junto não porque são pressionadas, mas porque entendem o jogo que estão jogando.
No fim, cultura organizacional é coerência. É saber exatamente quem você quer ao seu lado e ter coragem de dizer não para o resto.
Cultura não é negociável. Abrir exceção hoje pode parecer pragmatismo, mas quase sempre é o primeiro passo de uma conta que a empresa vai pagar no futuro.
Cultura é estratégia. E, acima de tudo, proteção contra a ruína.