Gabriel Harchbart convida: Arthur Campos
Arthur Campos é empresário há quase 15 anos, atuando em múltiplos segmentos no Brasil e, mais recentemente, nos EUA.
Vivemos na era do networking. Eventos, feiras, meetups, LinkedIn, grupos de WhatsApp com pessoas que mal conhecemos — tudo em nome de ampliar o círculo e encontrar novas oportunidades. Não há nada de errado nisso. No entanto, enquanto corremos atrás de novas conexões, muita gente deixa para trás algo extremamente valioso: as relações que já construiu ao longo da vida.
Existe um ditado popular que parece justificar essa separação: “amigos, amigos, negócios à parte.” Como se cultivar amizades e construir negócios fossem dois mundos que jamais deveriam se tocar. Como se o melhor que um amigo pudesse fazer por você fosse se manter longe das seus sonhos e dos seus projetos profissionais. Eu discordo. E discordo com propriedade.
Pense bem: se você tem um histórico de bons relacionamentos — pessoas com quem construiu confiança ao longo de anos, com quem compartilhou momentos difíceis e conquistas, com quem existe um compromisso real de reciprocidade — por que essas pessoas não seriam as primeiras a quem você recorreria ao iniciar um novo negócio? A confiança, que é um dos ativos mais escassos e valiosos no mundo dos negócios, já está ali, construída. Você não precisa começar do zero.
Sou empresário desde 2013 e atuo em diversos segmentos simultaneamente. Ao longo de mais de uma década, tive minha cota de experiências difíceis em sociedades — situações em que a confiança foi traída por pessoas que, de diferentes formas, faziam parte do meu círculo. São aprendizados que doem, mas que ensinam. E o que aprendi é que esses episódios não aconteceram pela proximidade em si, mas pela ausência de alinhamento, de clareza de papéis e, em alguns casos, pela falta de caráter de quem estava do outro lado. Isso, convenhamos, pode acontecer com qualquer pessoa, próxima ou desconhecida.
As minhas melhores histórias empresariais, por outro lado, foram construídas com pessoas em quem confio, com quem tenho história, com quem posso ligar às 22h para resolver um problema ou celebrar uma conquista. Hoje consigo atuar em múltiplos negócios simultaneamente justamente porque não estou sozinho em nenhum deles. A complementariedade de habilidades entre sócios é o que permite escalar, inovar e estar em mais de um lugar ao mesmo tempo. Se eu tivesse que tocar cada projeto de ponta a ponta, sem parceiros confiáveis, provavelmente estaria à frente de um único negócio — e talvez nem tão bem.
Aprendi também que um contrato bem feito entre amigos não é sinal de desconfiança — é sinal de respeito. Respeito pela relação, respeito pelo que está sendo construído e respeito pelo futuro. Conversa difícil feita antes de assinar qualquer coisa evita guerra no meio do caminho. Alinhamento de expectativas, divisão clara de responsabilidades e abertura para conflitos produtivos: isso é o que mantém uma parceria viva, saudável e rentável.
Quando iniciei um projeto recente nos Estados Unidos, captando recursos de investidores brasileiros para operar no mercado americano, uma das coisas que mais me motivou foi justamente isso: oferecer a pessoas próximas, a amigos, a oportunidade de investir fora do Brasil com segurança e com acesso direto a quem vai colocar a mão na massa. Não uma oportunidade distante, vendida por desconhecidos — mas algo construído sobre uma base de confiança real. É esse tipo de relação que transforma um bom negócio em algo ainda mais significativo.
A pergunta, portanto, não é se devemos ou não fazer negócios com amigos. A pergunta certa é: com qual amigo, com qual estrutura e com qual nível de alinhamento? Quando você tem a maturidade de fazer essas perguntas antes de avançar, a amizade deixa de ser um risco e passa a ser uma vantagem competitiva.
Então, amigos à parte? Não. Amigos, à frente. Enquanto todos correm para ampliar o networking com desconhecidos, talvez valha olhar ao redor e perceber que as melhores oportunidades já estão mais perto do que parecem.