Dayse Barbosa. Foto: Reprodução
No mês em que celebramos as conquistas, as histórias e a força das mulheres, o Espírito Santo é, mais uma vez, atravessado pela violência. No dia de ontem, 23 de março, a comandante da Guarda Municipal de Vitória, Dayse Barbosa, de 37 anos, foi assassinada dentro de casa pelo namorado, Diego Oliveira de Souza, que em seguida tirou a própria vida. Um crime brutal, premeditado, que não deixa espaço para relativizações: é mais um triste caso de feminicídio.
Dayse não é apenas um nome nas manchetes. Era mãe, filha, liderança pública e a primeira mulher a comandar a Guarda Municipal da capital. Uma mulher que dedicou sua vida à proteção da sociedade, inclusive à luta contra a violência que, tragicamente, tirou sua vida. Sua morte escancara uma verdade incômoda: nenhuma mulher está totalmente segura.
As informações já divulgadas revelam um histórico de relação conturbada, marcada por agressões e tentativas de controle. O motivo do crime, segundo as investigações, teria sido o fim do relacionamento. É triste perceber que o que para uma mulher é o exercício legítimo da sua liberdade, para muitos homens ainda é interpretado como afronta, perda de poder, autorização para destruir – e matar.
O problema não é pontual, não é “mais um caso isolado”, não é um desvio de caráter inexplicável. O feminicídio é a ponta mais extrema de uma cultura que normaliza o controle, o ciúme doentio, a posse sobre o corpo e a vida das mulheres. E essa cultura, homens capixabas, precisa ser enfrentada por vocês – por nós.
Não basta dizer que “não são todos os homens”. Não basta se indignar apenas quando o crime ganha repercussão. É preciso se responsabilizar pelo ambiente que se constrói nas conversas, nas piadas, nos silêncios, nas atitudes que minimizam sinais de violência. É preciso interromper ciclos antes que eles se tornem irreversíveis.
Ao longo de todo este mês de março, o Orgulho Capixaba tem contado histórias de mulheres que inspiram, que lideram, que transformam o Espírito Santo. São trajetórias que nos enchem de orgulho, que mostram a potência feminina em todas as áreas da sociedade. Mas de que adianta contar histórias de conquistas se seguimos, ao mesmo tempo, noticiando mortes evitáveis?
Nós queremos continuar contando histórias como a de Dayse, mas em vida. Queremos falar de mulheres que ocupam espaços, que quebram barreiras, que lideram instituições, que criam filhos, que constroem futuros. Não queremos escrever sobre despedidas interrompidas pela violência. Não queremos que o mês da mulher seja, também, um mês de luto.
Este não é um texto confortável, mas é um chamado à consciência. Aos homens que amam, que convivem, que lideram, que educam: revejam comportamentos, questionem padrões, procurem ajuda quando necessário.
Também é um apelo coletivo: às instituições, para que fortaleçam redes de proteção; às sociedade, para que não naturalize sinais de abuso; e às mulheres, para que saibam que vocês não estão sozinhas, e que suas vidas importam, sempre.
O que está em jogo não é apenas a memória de quem se foi. É o direito de todas as outras de continuarem aqui, vivendo, existindo e sendo, todos os dias, motivo de Orgulho.