Por: Vera Ferraço | Jornalista com atuação em comunicação pública
Democracia não é grito, nem disputa de torcida. É responsabilidade. Como lembrou Ulysses Guimarães, “a democracia é o regime que mais exige do cidadão”. Em tempos de excesso de opinião e escassez de atenção, ela começa no silêncio de quem escolhe ouvir antes de reagir.
Na correria do dia a dia, esse nível de atenção pode soar quase insensato – especialmente para quem se vira nos trinta para dar conta de tantos desafios. É justamente nesse ambiente que o processo eleitoral tem sido atravessado por ruídos que simplificam problemas complexos e afastam o eleitor do essencial: o debate qualificado sobre os caminhos possíveis para o país.
No livro Brasil no Espelho, o cientista político Felipe Nunes descreve um país dividido não apenas por preferências eleitorais, mas por percepções de realidade. O Brasil passou a se olhar por espelhos distintos, nos quais fatos são relativizados e o diálogo cede lugar ao confronto permanente. Esse ambiente fragiliza a democracia e empobrece o debate público.
Os efeitos da polarização já ultrapassaram a política institucional. Invadiram lares, romperam amizades, tensionaram relações familiares e transformaram divergência em hostilidade. Enquanto o debate se perde em confrontos, o Brasil real segue lidando com problemas estruturais.
E esses problemas são concretos, mensuráveis e urgentes. Segurança pública, saúde e educação permanecem entre os desafios mais críticos. O país registra taxa de homicídios superior a 20 mortes por 100 mil habitantes – mais de três vezes a média mundial, segundo o Atlas da Violência 2023 (IPEA e Fórum Brasileiro de Segurança Pública) e dados do UNODC.
Na educação, os resultados do SAEB 2021 (INEP) mostram que, em algumas etapas da educação básica, mais de 70% dos estudantes não atingem o nível adequado de aprendizagem – e, no ensino médio em Matemática, esse percentual supera 90%. O diagnóstico é conhecido; o que falta é consistência na resposta.
Na saúde e na proteção social, os números dimensionam a realidade brasileira. Cerca de 70% da população depende exclusivamente do SUS, segundo o IBGE. Ao mesmo tempo, aproximadamente 21 milhões de famílias recorrem ao Bolsa Família, conforme o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social.
Esses dados não pertencem a um campo político. Pertencem à vida de milhões de brasileiros – e indicam onde o debate público deveria estar concentrado.
Somos um país de enorme potencial, mas ainda marcado por desigualdades persistentes e ciclos de improviso. A população aprendeu a resistir, trabalhar e se reinventar nas crises. Mas essa capacidade não pode significar naturalizar problemas que exigem resposta.
Por isso, o eleitor precisa exercer atenção crítica: aos discursos simplificadores, às soluções fáceis e às narrativas que exploram medo e ressentimento. A polarização extrema desloca o debate do campo racional para disputas emocionais que pouco contribuem para a formulação de políticas públicas eficazes.
O Brasil precisa de um projeto consistente de desenvolvimento sustentável – capaz de ampliar oportunidades no presente sem comprometer as próximas gerações, com responsabilidade fiscal, eficiência administrativa e políticas baseadas em evidências. Isso passa por investir com seriedade em educação, fortalecer o sistema de saúde, enfrentar a violência com inteligência e assegurar gestão transparente dos recursos públicos.
Democracia exige mais do que posicionamento. Exige consciência. Exige presença qualificada – do voto ao acompanhamento das decisões públicas que moldam o cotidiano.
Porque votar é mais do que apertar um botão. É assumir, com lucidez, a responsabilidade pelo país que queremos – e pelas consequências de cada escolha.
Antes de escolher um lado, o eleitor precisa escolher prestar atenção.