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Em um mundo que fala demais, quem ainda sabe ouvir?

Publicado em: 24/07/2026

Reflexões sobre comunicação, cidadania e sociedade

 

Por: Vera Ferraço

 

Nunca foi tão fácil falar. Temos redes sociais, grupos de mensagens, comentários, vídeos, podcasts e uma infinidade de espaços para expressar opiniões. A tecnologia ampliou nossa voz como nunca antes na história. Mas, em meio a tanto discurso, surge uma pergunta importante: quem ainda sabe ouvir?

Estamos vivendo uma curiosa contradição. Quanto mais espaços criamos para nos expressar, mais difícil se tornou compreender o outro.

Muitas vezes, entramos em uma conversa não para entender, mas para responder. Enquanto alguém fala, já estamos preparando nosso argumento, organizando nossa defesa ou pensando em como provar que estamos certos.

Escutamos com pressa, entendemos pela metade e ouvimos apenas o suficiente para rebater.

Talvez por isso tantas conversas terminem em conflito e tão poucas resultem em entendimento. Sem escuta, não existe diálogo. E sem diálogo, fica cada vez mais difícil construir consensos, resolver problemas e fortalecer relações.

Ouvir não é um ato passivo. Pelo contrário. Exige atenção, interesse e disposição para enxergar uma realidade diferente da nossa. Exige suspender julgamentos por alguns instantes e permitir que a outra pessoa conclua seu raciocínio antes de formularmos uma resposta.

Parece simples. Mas não é.

A escuta verdadeira demanda algo que está cada vez mais raro: presença.

No ambiente profissional, equipes funcionam melhor quando as pessoas se sentem ouvidas. Nas famílias, muitos conflitos poderiam ser evitados se houvesse mais disposição para compreender antes de responder. Na vida pública, o diálogo se torna mais produtivo quando a escuta tem o mesmo valor da fala.

Nas redes sociais e nos ambientes digitais, onde a velocidade costuma premiar reações instantâneas, a escuta continua sendo uma habilidade indispensável. Nem toda divergência é uma ameaça. Nem toda opinião diferente é um ataque. Em muitos casos, aquilo que nos incomoda pode ser justamente uma oportunidade de ampliar perspectivas.

Isso não significa concordar com tudo.

Escutar não é abrir mão das próprias convicções. É reconhecer que nenhuma pessoa possui todas as respostas e que sempre existe algo a aprender quando estamos dispostos a prestar atenção.

Por isso, um dos grandes desafios do nosso tempo não é encontrar mais espaços para falar. Esses espaços já existem aos montes.

O verdadeiro desafio é reaprender a ouvir. Porque comunicação não acontece quando alguém apenas transmite uma mensagem. Acontece quando existe compreensão.

Em tempos de tantas vozes disputando atenção, ouvir pode parecer pouco. Mas continua sendo uma das formas mais poderosas de construir pontes, fortalecer relações e tornar o diálogo possível.

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