Reflexões sobre comunicação, cidadania e sociedade
Por: Vera Ferraço
Nem tudo o que viraliza é relevante. E nem tudo o que é relevante viraliza. Essa talvez seja uma das tensões mais desconfortáveis do nosso tempo, especialmente para quem trabalha com comunicação governamental e institucional. Afinal, existe um compromisso maior e inegociável: garantir que o cidadão tenha acesso a informações de interesse coletivo de forma clara, transparente e responsável.
Isso parece óbvio. Mas o óbvio tem sido cada vez mais desafiado por um ambiente que recompensa o like.
Vivemos sob a lógica do engajamento. Tudo é medido: curtidas, compartilhamentos, comentários, alcance, tempo de tela. A consequência disso é silenciosa, mas profunda: o valor da comunicação passa a ser confundido com o seu desempenho nas plataformas.
E aí surge o risco. Porque existe uma diferença fundamental entre usar estratégias de comunicação digital e submeter a comunicação pública aos critérios da popularidade.
A primeira é necessária. A segunda é perigosa.
A comunicação pública precisa, sim, estar nas redes sociais. Precisa estar no Instagram, no Facebook, no YouTube, no WhatsApp, onde as pessoas estão. E precisa fazer isso com linguagem acessível, criatividade e inteligência, inclusive para tratar temas técnicos e complexos.
Mas isso não pode significar abdicar do essencial. A informação mais importante nem sempre será a mais atraente. O conteúdo mais relevante pode não caber no formato mais popular. E aquilo que exige mais explicação dificilmente será o que mais gera engajamento.
Uma campanha de matrícula escolar dificilmente despertará o mesmo interesse de conteúdos de entretenimento. Um alerta da Defesa Civil não costuma competir em igualdade de condições com assuntos que dominam as tendências do momento. Informações sobre vacinação, prevenção de doenças ou acesso a serviços públicos raramente estão entre as publicações mais compartilhadas. Ainda assim, são conteúdos que impactam diretamente a vida das pessoas e precisam chegar a quem deles necessita.
Não por seu potencial de alcance, mas por sua relevância para a vida coletiva.
Quando a lógica da aprovação passa a orientar decisões da comunicação pública, o risco não é apenas estético. É institucional, porque provoca a erosão gradual da confiança. E, na esfera pública, confiança é patrimônio.
Porque confiança não nasce do sucesso momentâneo. Nasce da coerência e da prática de um princípio simples: informar com verdade, mesmo quando isso não rende aplausos.
Curtidas passam. Algoritmos mudam. Tendências se esgotam. Mas a credibilidade de uma instituição pública não pode depender disso.
O desafio da comunicação pública não é disputar atenção a qualquer custo. É permanecer útil mesmo quando os holofotes apontam para outro lugar.
Porque o cidadão não precisa apenas da informação que deseja consumir. Precisa, muitas vezes, da informação que tem o direito de conhecer. É justamente nessa diferença que se revela a verdadeira responsabilidade de comunicar no setor público.