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Praia do Canto: o bairro mais desejado de Vitória enfrenta o desafio da manutenção de seus prédios antigos

Publicado em: 01/10/2026

Foto: Diego Alves/ Prefeitura de Vitória

Por: Filipe Machado

 

Se você perguntar a um morador de Vitória em qual bairro gostaria de morar, é provável que alguns dos nomes mais tradicionais da capital apareçam rapidamente. Mas poucos têm tanta força no imaginário capixaba quanto a Praia do Canto.

Arborizada, próxima ao mar, com restaurantes, comércio, serviços e vida noturna, a região reúne características que fizeram dela, durante décadas, um dos endereços mais desejados do Espírito Santo. Não é exagero dizer que, guardadas as devidas proporções, a Praia do Canto exerce para Vitória um papel semelhante ao de bairros tradicionais e valorizados de outras grandes cidades brasileiras.

Mas existe um desafio silencioso acontecendo dentro do próprio bairro.

 

Prédios novos cada vez mais caros. Prédios antigos cada vez mais difíceis de manter

A escassez de terrenos disponíveis e a elevada procura fazem com que novos empreendimentos lançados na Praia do Canto alcancem valores cada vez maiores.

Enquanto isso, muitos edifícios construídos há 30, 40 ou até 50 anos enfrentam uma realidade completamente diferente. São prédios com apartamentos enormes, muitas vezes com 200, 300 ou até mais metros quadrados, concebidos para outro perfil de família e outra realidade econômica.

O imóvel pode continuar excelente. A localização também. O problema está no custo de manter toda essa estrutura.

Elevadores, fachadas, sistemas elétricos, hidráulicos, impermeabilização, estruturas, garagens, portarias e equipamentos comuns precisam de manutenção independentemente de o prédio possuir 10, 20 ou 50 apartamentos. E quando existem poucas unidades para dividir essas despesas, a conta por apartamento fica pesada.

É aí que aparecem condomínios com taxas elevadas e obras extraordinárias que podem atingir dezenas ou centenas de milhares de reais por unidade.

 

O problema não é a idade do prédio. É a falta de manutenção

Um edifício antigo não precisa ser um edifício ruim. Construções bem mantidas podem permanecer valorizadas durante muitas décadas.

O problema começa quando a manutenção preventiva é constantemente adiada. Uma infiltração pequena vira recuperação de fachada. Uma falha de impermeabilização se transforma em deterioração estrutural. Uma instalação antiga que poderia ter sido modernizada gradualmente passa a exigir uma intervenção completa.

Em edifícios mais antigos, uma inspeção predial bem planejada ajuda a identificar riscos, classificar prioridades e separar o que é urgente daquilo que pode ser programado ao longo do tempo.

O resultado da ausência de planejamento é conhecido por muitos condomínios: anos de negligência se transformam em uma obra extremamente cara. E o mercado percebe isso.

O comprador não analisa apenas o tamanho do apartamento. Ele começa a considerar também a idade do edifício, o valor do condomínio, as obras previstas e o passivo de manutenção existente. Por isso encontramos uma situação aparentemente contraditória na Praia do Canto: apartamentos antigos enormes sendo negociados pelo preço de unidades novas muito menores.

 

Talvez a próxima transformação da Praia do Canto esteja nos prédios que já existem

Vitória possui pouco espaço disponível justamente nos bairros mais valorizados. Por isso, uma discussão que deveria ganhar força nos próximos anos é o retrofit de edifícios existentes.

Retrofit não significa simplesmente reformar uma fachada. É repensar o edifício: modernizar instalações, adequar sistemas de segurança, melhorar eficiência energética, atualizar áreas comuns, corrigir manifestações patológicas e, quando técnica e juridicamente possível, até reconsiderar a configuração interna das unidades.

Em alguns casos, grandes apartamentos originalmente projetados para famílias de cinco ou seis pessoas poderiam dar origem a unidades menores e mais compatíveis com a demanda contemporânea. Isso poderia trazer um efeito interessante: mais unidades contribuindo para a manutenção de uma mesma infraestrutura condominial.

Porque existe uma realidade matemática difícil de ignorar. Todo edifício possui despesas básicas. Elevador precisa de manutenção. Fachada precisa de conservação. Caixa d’água precisa de intervenção. Instalações envelhecem. Estruturas precisam ser monitoradas.

Dividir essas despesas entre 12 apartamentos é completamente diferente de dividi-las entre 30 ou 40.

Para que isso não vire apenas uma sucessão de obras emergenciais, o condomínio precisa de um plano de manutenção predial capaz de organizar intervenções, prever custos e reduzir decisões tomadas apenas quando o problema já se tornou urgente.

 

Preservar também é modernizar

Durante muito tempo, crescimento imobiliário foi praticamente sinônimo de derrubar um prédio antigo e construir outro. Talvez esse modelo não precise ser a única alternativa.

A Praia do Canto possui localização, infraestrutura, comércio e identidade urbana que levaram décadas para serem construídos. Preservar esse patrimônio imobiliário pode significar justamente modernizá-lo para que continue competitivo por mais algumas décadas.

Essa discussão passa por engenharia, arquitetura, legislação urbana, convenções condominiais e viabilidade econômica. Em intervenções de maior porte, experiência prática mostra que planejamento, orçamento e assessoria técnica condominial são fundamentais para transformar problemas acumulados em um programa de recuperação executável.

Mas é uma discussão que Vitória precisa fazer.

Porque talvez o futuro da Praia do Canto não esteja apenas nos poucos terrenos que ainda restam. Pode estar nos centenas de edifícios que já estão lá. E que, com planejamento, manutenção e engenharia, ainda podem viver uma nova geração.

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