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Por: Bianca Tápias
Existe uma contradição curiosa na gastronomia contemporânea. Enquanto chefs investem em técnicas sofisticadas para extrair o máximo de sabor dos ingredientes, toneladas de alimentos perfeitamente aproveitáveis continuam sendo descartadas diariamente, incluindo
cascas, talos, folhas e sementes que poderiam revelar sabores e possibilidades ainda pouco explorados.
No dia 16 de outubro, quando se celebra o Dia Mundial da Alimentação, vale observar essa questão por uma perspectiva que ultrapassa o discurso habitual sobre sustentabilidade, afinal, aproveitar integralmente um alimento também é um exercício de criatividade, conhecimento técnico e, por que não, sofisticação.
Na cozinha profissional, o aproveitamento começa muito antes de uma receita ficar pronta, quando o chef reconhece que a carcaça de um peixe pode originar um caldo saboroso, que aparas de vegetais podem enriquecer diferentes preparações e que um pão amanhecido ainda oferece inúmeras possibilidades gastronômicas. Muitas vezes, o que diferencia o descarte da transformação é justamente o repertório de quem cozinha.
Essa lógica também merece espaço dentro de casa, onde talos de brócolis podem entrar em cremes e refogados, cascas de abóbora podem ser assadas até ficarem crocantes e frutas muito maduras podem ganhar uma segunda vida em compotas, bolos e sobremesas, demonstrando que o aproveitamento não exige necessariamente receitas elaboradas.

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No Espírito Santo, onde ingredientes como banana, mandioca, abóbora e pescados fazem parte da nossa identidade alimentar, existe um universo de possibilidades a explorar, especialmente quando consideramos que a própria tradição culinária capixaba carrega conhecimentos de aproveitamento transmitidos entre gerações, hoje revisitados pelas cozinhas contemporâneas.
Existe ainda uma questão econômica importante, já que cada ingrediente descartado representa recursos investidos em produção, transporte, armazenamento e compra que não cumpriram sua finalidade. Para restaurantes, onde o controle de custos influencia diretamente a rentabilidade, compreender o rendimento dos alimentos pode ser tão relevante quanto desenvolver um bom cardápio, desde que o aproveitamento respeite critérios de conservação e segurança alimentar.
Talvez a verdadeira sofisticação gastronômica esteja também na capacidade de enxergar possibilidades onde antes víamos apenas restos, porque criatividade na cozinha não se revela somente na escolha dos ingredientes mais nobres, mas na inteligência de utilizar bem aquilo que já temos.
E fica uma provocação para a próxima vez que você estiver preparando uma refeição: quanto do que vai para o lixo poderia,, nas mãos certas, se transformar na melhor parte do prato?