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A arte de transformar técnica e afeto em gastronomia

Publicado em: 09/03/2026

Por: Ivy Coutinho

 

Há histórias que crescem como um bom pão de fermentação natural. Começam pequenas, exigem paciência, passam por tentativas, ajustes e tempo. Quando finalmente chegam ao ponto certo, carregam sabor, identidade e propósito. A trajetória da chef Patrícia Santos Neves me lembra exatamente esse processo.

Em um universo conhecido pela intensidade das cozinhas profissionais e pela cobrança permanente por excelência, Patrícia construiu seu caminho de forma consistente, com trabalho silencioso, disciplina e paixão. Hoje, à frente da panificação e da rotisseria do Empório Joaquim, ela representa uma geração de mulheres que ocupam a gastronomia com técnica, sensibilidade e visão de futuro.

Mas essa história começou muito antes do reconhecimento. Desde 2009, Patrícia decidiu que a gastronomia seria mais do que profissão. Seria caminho de vida. A inquietação de aprender levou a jovem capixaba a atravessar fronteiras. Depois de iniciar sua trajetória em Vitória, ela foi para a Itália, na região do Piemonte, mergulhando em uma das culturas gastronômicas mais respeitadas do mundo. Mais tarde seguiu para São Paulo, ampliando repertório, experimentando novas técnicas e absorvendo diferentes referências.

Hoje, sua rotina no Joaquim revela a dimensão dessa construção. Patrícia acompanha de perto cada etapa da produção. Testa receitas, ajusta detalhes, lidera equipes e participa das decisões estratégicas do negócio. Ao longo dessa caminhada, desenvolveu mais de 60 receitas de fermentação natural, resultado de repetição, estudo e aperfeiçoamento constante.

Entre os desafios que marcaram sua formação estão receitas que exigem precisão absoluta, como os croissants, panetones e o pão de queijo Canastra do Joaquim. Massas que não admitem pressa. “Foi um processo de insistência e aperfeiçoamento”, comenta.

Essa busca permanente pelo melhor ajudou a consolidar o Empório de como uma referência de gastronomia de alto padrão no Espírito Santo, inspirada nas melhores cozinhas do mundo e sustentada por técnica e ingredientes selecionados. Patrícia faz questão de dividir essa conquista com o irmão e sócio, Marcelo Santos Neves. “Existe um padrão elevado e um compromisso diário com qualidade, e nada disso construímos sozinhos, temos uma equipe muito preparada e contamos com eles no dia a dia para entregar sempre o melhor aos nossos clientes”, reforça.

Mas se a técnica sustenta a cozinha, é o afeto que dá identidade ao que chega à mesa. Muitas das criações de Patrícia nascem das memórias familiares. Livros de receitas, histórias e sabores da infância se transformam em pratos que conquistam os clientes.

“O nosso patê de atum traz uma tradição familiar. Usamos peixe fresco, como o meu avô pescava, que depois era preparado em casa. São sabores que carregam memória, identidade e significado.”

Outro exemplo é o strogonoff, receita que atravessa gerações em sua família. “É receita de família, da minha mãe, Alda, que faz há muitos anos. Desde novinha ela me ensinou os ‘pulos do gato’, a forma de flambar, os detalhes que transformam o resultado final. Hoje é um dos queridinhos do nosso bistrô.”

Historicamente dominada por homens nos cargos de liderança, a gastronomia começa a ver mais mulheres ocupando espaços estratégicos. Patrícia conhece bem esse cenário. “Como mulher, já senti que precisava provar minha capacidade mais de uma vez, mas sempre acreditei que dedicação, postura e constância falam mais alto. Hoje vejo cada vez mais mulheres ocupando seus espaços com segurança e competência, e tenho muitas delas como referências, inclusive a equipe do Joaquim é formada por muitas mulheres incríveis.”

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