Por: Dalto Bozzetti
Quer conhecer o verdadeiro dono de uma empresa? Não precisa entrar na sala dele. Observe os funcionários.
Veja como as pessoas tratam os clientes. Como resolvem um problema quando ninguém está olhando. Como cuidam do patrimônio. Como cumprem horários. Como reagem quando alguma coisa dá errado.
Em pouco tempo, você começa a descobrir quem lidera aquela empresa.
Pode parecer exagero, mas depois de quase três décadas empreendendo, aprendi uma coisa: com o tempo, a empresa começa a se parecer com quem está no comando.
Se o dono aceita atraso, o atraso vira normal.
Se aceita desculpas, as desculpas se multiplicam.
Se passa por cima dos processos quando está com pressa, não pode se surpreender quando a equipe fizer a mesma coisa.
Mas o contrário também acontece.
Quando existe respeito, responsabilidade, disciplina e cuidado com as pessoas, esses comportamentos começam a se espalhar.
É assim que uma cultura é construída.
Cultura não é o quadro na parede
Ainda existem empresas que tratam cultura como um conjunto de palavras bonitas colocadas na recepção.
Missão. Visão. Valores.
Tudo muito bem escrito.
Mas basta acompanhar a rotina para descobrir a cultura de verdade.
Cultura é o comportamento que se repete todos os dias.
É aquilo que acontece quando o cliente reclama. É a forma como o gestor conversa com um funcionário. É o padrão de serviço que a empresa aceita. É o problema que todo mundo conhece, mas ninguém resolve.
E, principalmente, é aquilo que a liderança decide tolerar.
Por isso, acredito que muitos problemas empresariais começam muito antes de aparecerem nos números.
Quando o faturamento cai, a margem desaparece, os clientes reclamam ou bons profissionais começam a sair, normalmente olhamos primeiro para o financeiro, para o comercial ou para a operação.
Claro que precisamos olhar para tudo isso.
Mas existe uma pergunta anterior:
Que comportamentos foram sendo aceitos para que a empresa chegasse até aqui?
O Espírito Santo é feito de empresas construídas por gente de verdade
Quem empreende no Espírito Santo conhece essa história.
Temos empresas que nasceram pequenas, muitas vezes familiares, construídas com trabalho duro, relacionamento, confiança e coragem.
O fundador começou fazendo de tudo. Vendia, cobrava, atendia cliente, resolvia problema, contratava e, quando precisava, colocava a mão na operação.
A empresa cresceu.
Vieram mais funcionários, mais clientes, mais estrutura e mais responsabilidade.
Só que existe um momento em que aquilo que ajudou a empresa a nascer pode não ser suficiente para fazê-la continuar crescendo.
O dono já não consegue estar em todos os lugares.
E é justamente aí que a cultura deixa de ser assunto bonito e passa a ser estratégia.
Porque, quando o dono não está presente, alguém precisa saber como aquela empresa pensa, decide e age.
Isso é cultura.
O exemplo continua sendo a maior ferramenta da liderança
É muito difícil exigir organização vivendo na desorganização.
É difícil cobrar pontualidade chegando atrasado.
É difícil falar de respeito tratando pessoas de maneira diferente dependendo do cargo.
E é praticamente impossível construir responsabilidade quando, toda vez que alguma coisa dá errado, procuramos primeiro um culpado.
As pessoas podem até ouvir aquilo que o líder fala.
Mas elas aprendem, principalmente, observando aquilo que ele faz.
Por isso, antes de perguntar:
“Por que minha equipe está desse jeito?”
Talvez exista uma pergunta mais desconfortável:
“O que a minha liderança está ensinando todos os dias?”
Essa pergunta também vale para mim.
Empreender durante tantos anos não me ensinou apenas sobre empresas. Ensinou, principalmente, que liderar exige a disposição permanente de olhar para o próprio comportamento.
Porque liderança não é apenas apontar o que os outros precisam melhorar.
Também é ter coragem para perceber aquilo que precisa mudar em nós.
No fim das contas, empresas são construídas por pessoas.
E pessoas aprendem muito mais com exemplos do que com discursos.
A empresa tem a cara do dono porque, antes de virar resultado, toda cultura começa no comportamento de quem lidera.