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Amizade de infância de capixabas vira empreendimento milionário de tecnologia

Publicado em: 29/04/2026

Miguel Monjardim Andrade e Bruno Pimentel. Foto: Divulgação

Dois jovens capixabas de 22 anos criam solução de inteligência artificial para clínicas de saúde e atraem investidores

 

A história de Miguel Monjardim Andrade e Bruno Pimentel não começa em uma sala de reunião, nem em um laboratório de tecnologia. Começa muito antes disso, ainda na infância, quando os dois dividiam o tempo entre escola, convivência familiar e uma rotina comum a qualquer jovem, sem imaginar que, anos depois, estariam construindo juntos uma empresa de tecnologia.

Aos 22 anos, a amizade se transformou em sociedade. E o que era uma relação pessoal virou um negócio que já começa a ganhar espaço em um dos setores mais tradicionais do país: a saúde.

Eles fazem parte de uma geração que tem empreendido cada vez mais cedo. Levantamento do Sebrae, com base na PNAD Contínua, mostra que o Brasil chegou a quase 5 milhões de jovens empreendedores em 2024. Em uma década, a participação de jovens entre os donos de negócios cresceu mais de 20%, refletindo uma mudança no perfil de quem decide empreender no país.

Ao mesmo tempo, a inteligência artificial deixou de ser tendência para se tornar uma ferramenta aplicada diretamente às operações. Segundo o AI Index Report 2025, mais de 75% das empresas no mundo já utilizam algum tipo de IA em seus processos. A consultoria McKinsey estima que a tecnologia pode adicionar até US$ 4,4 trilhões por ano à economia global, o que ajuda a explicar por que novos negócios já nascem estruturados sobre essa base.

É nesse encontro entre juventude empreendedora e avanço tecnológico que surge a Ailum. A empresa desenvolveu uma plataforma baseada em inteligência artificial que atua diretamente no funcionamento das clínicas, desde o primeiro contato com o paciente até o acompanhamento clínico. O sistema organiza o atendimento, conduz agendamentos, confirma consultas, realiza cobranças e mantém o relacionamento ativo. Ao mesmo tempo, apoia o profissional de saúde na organização de prontuários, na estruturação de informações e condução de teleconsultas.

 

Investidores-anjo

Ainda em fase inicial, o projeto já recebeu um aporte de mais de R$ 600 mil de investidores-anjo do ramo da construção civil, em uma rodada que avaliou a empresa em aproximadamente R$ 12 milhões.

O investimento recebido acompanha um movimento mais amplo do mercado, que tem direcionado recursos para negócios com aplicação prática de inteligência artificial, especialmente aqueles que resolvem problemas recorrentes e têm potencial de escala.

A origem da ideia está diretamente ligada à trajetória dos dois. Miguel começou a trabalhar ainda na adolescência com marketing digital e, ao longo dos anos, passou a atender clínicas privadas, convivendo de perto com a dinâmica desses negócios. Foi nesse ambiente que percebeu um padrão recorrente: clínicas investiam para atrair pacientes, mas não conseguiam transformar esse interesse em atendimento efetivo.

“Muitas vezes o paciente chegava até a clínica, demonstrava interesse, mas não recebia resposta no tempo certo ou não era conduzido até o agendamento. Isso acontecia com frequência, sem que o médico tivesse clareza do impacto disso no resultado”, conta.

Enquanto Miguel observava o problema na prática, Bruno seguia outro caminho. Ingressou no Instituto Tecnológico de Aeronáutica (ITA), onde se formou em Engenharia Aeronáutica, e passou a desenvolver sistemas e soluções tecnológicas em escala. Antes mesmo de concluir a graduação, já havia participado de projetos com alcance nacional, lidando com grandes volumes de dados e automação de processos.

A decisão de empreender juntos surgiu justamente da combinação dessas experiências. “Percebemos que não era uma dor pontual. Clínicas inteiras operam sem processo comercial estruturado, dependendo de esforço humano para dar conta de tudo. A gente entendeu que dava para organizar isso de forma mais consistente”, explica Bruno.

A Ailum foi desenvolvida com esse objetivo. Integrada ao WhatsApp, principal canal de comunicação entre clínicas e pacientes, a plataforma passa a conduzir o atendimento. Interpreta mensagens, responde de forma contextual, sugere horários, agenda consultas e mantém o acompanhamento ao longo do tempo. Isso reduz o tempo de resposta e organiza um fluxo que, em muitas clínicas, ainda depende exclusivamente da disponibilidade da recepção.

Mas o impacto não se limita à parte comercial. A tecnologia também atua na organização da prática clínica. O sistema auxilia na construção de prontuários, organiza o histórico do paciente em uma linha do tempo estruturada e permite a realização de teleconsultas com registro automático das informações. Com isso, reduz o tempo dedicado a tarefas operacionais e permite que o profissional concentre sua atenção no atendimento.

Em um dos primeiros testes, a ferramenta conseguiu atender e agendar mais de 30 pacientes em um único dia, além de manter o acompanhamento ativo desses contatos, etapa que costuma ser negligenciada na operação das clínicas.

 

Atuação em escala

Para os fundadores, o foco não está restrito ao Espírito Santo. “O problema que a gente resolveu com a Ailum não é local. Ele se repete em qualquer clínica que dependa de atendimento e organização de agenda. Desde o início, a ideia foi construir algo que pudesse crescer em escala ”, afirma Miguel.

A trajetória dos dois amigos reflete uma mudança que começa a se consolidar no país. Cada vez mais, jovens optam por construir soluções próprias a partir de problemas concretos, muitas vezes antes mesmo de consolidar uma carreira tradicional. A combinação entre conhecimento técnico e experiência prática tem encurtado esse caminho.

No caso de Miguel e Bruno, o ponto de partida foi entender uma dor do mercado e decidir enfrentá-la. O que veio depois foi consequência. A amizade, nesse caso, virou empresa. E a empresa, ao que tudo indica, ainda está no começo da história.

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