Por: Filipe Machado
Acidentes recentes no Espírito Santo mostram por que planejamento, método executivo e responsabilidade técnica precisam entrar na decisão antes da mão de obra e dos materiais.
Quando uma obra é planejada, o primeiro orçamento quase sempre começa pelos itens visíveis: mão de obra, material, equipamento, prazo e preço. O risco, porém, raramente aparece em uma linha própria da planilha. É justamente por isso que ele costuma ser subestimado.
Em setembro, dois acidentes graves relacionados a obras no Espírito Santo chamaram atenção em um intervalo muito curto. Em Pedro Canário, a estrutura de um galpão em construção desabou enquanto trabalhadores atuavam na cobertura. Em Vila Velha, lajes desabaram durante uma intervenção em um imóvel. Houve mortes e feridos. Cada ocorrência tem circunstâncias próprias e as responsabilidades devem ser definidas pelas investigações, não por conclusões apressadas.
Mas existe uma reflexão que pode ser feita desde já: obra segura começa antes de alguém ligar uma ferramenta, içar uma peça ou iniciar uma demolição.
Muitas intervenções chegam ao canteiro com uma definição comercial do que será feito, mas sem uma definição técnica suficientemente detalhada de como será feito. Essa diferença é crítica. O método executivo, a ordem das etapas, os apoios provisórios, o isolamento da área, as condições existentes e a compatibilidade entre projeto e campo influenciam diretamente a segurança.
Uma boa consultoria de engenharia não serve apenas para produzir um laudo depois que algo deu errado. Ela também pode existir antes da execução, quando ainda é possível avaliar alternativas, esclarecer responsabilidades e transformar uma intenção de obra em um procedimento tecnicamente controlado.
A legislação brasileira estabelece que a ART identifica o profissional responsável pela atividade técnica. O ponto essencial é que responsabilidade não se resume ao registro do documento. Quem assume um serviço precisa conhecer o escopo, ter atribuição para ele e atuar de maneira compatível com aquilo que está sendo executado.
No acidente de Vila Velha, o Crea-ES informou que os levantamentos preliminares da vistoria não encontraram registros de responsabilidade técnica associados ao projeto, à execução, às intervenções no imóvel nem ao serviço de demolição que se iniciava. A informação não define, por si só, a causa do desabamento, mas reforça a importância de vincular intervenções de engenharia a profissionais habilitados.
Em obras, improviso quase sempre é caro. Quando um problema é percebido antes da execução, ainda há espaço para revisar projeto, mudar o método, reforçar uma etapa, substituir uma solução ou até suspender o serviço. Quando ele aparece com a obra em andamento, normalmente já existem prazo pressionado, material comprado, equipe mobilizada e decisões tomadas.
Por isso, serviços como fiscalização e acompanhamento técnico de obras não deveriam ser vistos apenas como instrumentos de cobrança de empreiteiros. Eles funcionam também como mecanismos de controle: registram o andamento, confrontam execução e projeto e ajudam a identificar desvios antes que se transformem em prejuízos maiores.
Em edificações existentes, outro instrumento relevante é a inspeção predial e o diagnóstico de anomalias. Conhecer o estado real de uma construção ajuda proprietários, empresas e condomínios a decidir prioridades e evitar que sinais aparentemente pequenos sejam ignorados por tempo demais.
Existe uma diferença importante entre reagir e prevenir. Reagir é chamar o engenheiro depois de uma trinca, de uma deformação, de uma paralisação ou de um acidente. Prevenir é criar condições para que a decisão técnica participe do processo desde o começo.
Nem toda obra é complexa. Nem toda intervenção exige o mesmo nível de estudo. Mas toda decisão que envolve estabilidade, sistemas da edificação ou segurança precisa ser compatível com o risco existente. O desafio é justamente reconhecer esse risco antes que ele se torne evidente para todos.
No orçamento de uma obra, prevenção pode parecer um custo adicional. Na prática, muitas vezes ela é o que impede que o menor item da planilha se transforme no maior problema do empreendimento.
Fontes de referência