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Antes de começar a obra: o risco que não aparece no orçamento

Publicado em: 24/09/2026

Por: Filipe Machado

 

Acidentes recentes no Espírito Santo mostram por que planejamento, método executivo e responsabilidade técnica precisam entrar na decisão antes da mão de obra e dos materiais.

 

Quando uma obra é planejada, o primeiro orçamento quase sempre começa pelos itens visíveis: mão de obra, material, equipamento, prazo e preço. O risco, porém, raramente aparece em uma linha própria da planilha. É justamente por isso que ele costuma ser subestimado.

Em setembro, dois acidentes graves relacionados a obras no Espírito Santo chamaram atenção em um intervalo muito curto. Em Pedro Canário, a estrutura de um galpão em construção desabou enquanto trabalhadores atuavam na cobertura. Em Vila Velha, lajes desabaram durante uma intervenção em um imóvel. Houve mortes e feridos. Cada ocorrência tem circunstâncias próprias e as responsabilidades devem ser definidas pelas investigações, não por conclusões apressadas.

Mas existe uma reflexão que pode ser feita desde já: obra segura começa antes de alguém ligar uma ferramenta, içar uma peça ou iniciar uma demolição.

 

Planejamento técnico também é parte da obra

Muitas intervenções chegam ao canteiro com uma definição comercial do que será feito, mas sem uma definição técnica suficientemente detalhada de como será feito. Essa diferença é crítica. O método executivo, a ordem das etapas, os apoios provisórios, o isolamento da área, as condições existentes e a compatibilidade entre projeto e campo influenciam diretamente a segurança.

Uma boa consultoria de engenharia não serve apenas para produzir um laudo depois que algo deu errado. Ela também pode existir antes da execução, quando ainda é possível avaliar alternativas, esclarecer responsabilidades e transformar uma intenção de obra em um procedimento tecnicamente controlado.

 

Responsabilidade técnica não é uma formalidade

A legislação brasileira estabelece que a ART identifica o profissional responsável pela atividade técnica. O ponto essencial é que responsabilidade não se resume ao registro do documento. Quem assume um serviço precisa conhecer o escopo, ter atribuição para ele e atuar de maneira compatível com aquilo que está sendo executado.

No acidente de Vila Velha, o Crea-ES informou que os levantamentos preliminares da vistoria não encontraram registros de responsabilidade técnica associados ao projeto, à execução, às intervenções no imóvel nem ao serviço de demolição que se iniciava. A informação não define, por si só, a causa do desabamento, mas reforça a importância de vincular intervenções de engenharia a profissionais habilitados.

 

Prevenir custa menos do que descobrir durante a execução

Em obras, improviso quase sempre é caro. Quando um problema é percebido antes da execução, ainda há espaço para revisar projeto, mudar o método, reforçar uma etapa, substituir uma solução ou até suspender o serviço. Quando ele aparece com a obra em andamento, normalmente já existem prazo pressionado, material comprado, equipe mobilizada e decisões tomadas.

Por isso, serviços como fiscalização e acompanhamento técnico de obras não deveriam ser vistos apenas como instrumentos de cobrança de empreiteiros. Eles funcionam também como mecanismos de controle: registram o andamento, confrontam execução e projeto e ajudam a identificar desvios antes que se transformem em prejuízos maiores.

Em edificações existentes, outro instrumento relevante é a inspeção predial e o diagnóstico de anomalias. Conhecer o estado real de uma construção ajuda proprietários, empresas e condomínios a decidir prioridades e evitar que sinais aparentemente pequenos sejam ignorados por tempo demais.

 

Segurança não deveria depender de o problema aparecer

Existe uma diferença importante entre reagir e prevenir. Reagir é chamar o engenheiro depois de uma trinca, de uma deformação, de uma paralisação ou de um acidente. Prevenir é criar condições para que a decisão técnica participe do processo desde o começo.

Nem toda obra é complexa. Nem toda intervenção exige o mesmo nível de estudo. Mas toda decisão que envolve estabilidade, sistemas da edificação ou segurança precisa ser compatível com o risco existente. O desafio é justamente reconhecer esse risco antes que ele se torne evidente para todos.

No orçamento de uma obra, prevenção pode parecer um custo adicional. Na prática, muitas vezes ela é o que impede que o menor item da planilha se transforme no maior problema do empreendimento.

 

Fontes de referência

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