Por: Vera Ferraço
Mais uma mulher foi assassinada.
Thaís Ellen Barbosa de Oliveira, 23 anos. Assassinada pelo ex-namorado.
Mais um nome.
Uma vida interrompida cedo demais.
E uma família que agora aprende a conviver com o irreparável.
E não, não é um caso isolado. Nunca é.
No Espírito Santo, a dor se repete – e tem nome:
Dayse Barbosa Mattos, comandante da Guarda Municipal de Vitória, morta pelo próprio namorado.
Milena Gottardi, médica oncologista pediátrica, assassinada em 2017 – um crime que o Espírito Santo não esqueceu, planejado pelo ex-marido.
Em São Paulo, a violência segue o mesmo roteiro.
A soldado Gisele Alves Santana, 32 anos, também foi morta. O principal acusado: o marido – com indícios, inclusive, de tentativa de encobrir o crime.
Histórias diferentes. Um mesmo padrão – ontem e hoje.
Homens que não aceitam o fim.
Que confundem amor com posse.
E que, diante da perda de controle, escolhem a violência.
O resultado é sempre o mesmo: mulheres assassinadas.
Feminicídio não é acaso.
É controle. É violência.
E são mulheres que pagam com a própria vida.
Os números confirmam o que já está diante dos nossos olhos.
O Brasil registra, em média, mais de 1.400 feminicídios por ano – cerca de quatro mulheres assassinadas por dia, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
Mas isso não é estatística.
São vidas.
A violência é tolerada – até virar morte.
E é justamente aí que está o problema: ainda fingimos não ver o que acontece dentro de casa, na forma como educamos, no que toleramos, no que silenciamos.
Ainda ensinamos que o homem precisa dominar.
Ainda tratamos o ciúme como prova de amor.
Ainda relativizamos o “não” de uma mulher.
Mas não há amor onde há controle.
Não há relação onde há medo.
E não existe justificativa para a violência.
O feminicídio não começa no disparo.
Começa muito antes – na cultura que tolera o desrespeito, que relativiza a agressão, que silencia os sinais.
É exatamente aí que precisamos agir.
Não basta lamentar cada nova vítima.
Indignação, sozinha, não interrompe esse ciclo.
É urgente unir forças.
Forças de segurança preparadas para agir com rigor e proteger antes que seja tarde.
Instituições comprometidas em acolher, denunciar e romper ciclos de violência.
Uma sociedade que não se omite – e que não aceita mais relativizar ou silenciar a violência.
E, acima de tudo, uma mudança cultural profunda – dentro de casa, na escola, nas relações.
Educar meninos para o respeito.
Para o limite.
Para entender que amor não é posse.
Que o fim não é derrota.
Que ninguém pertence a ninguém.
Não podemos esperar a próxima vítima para reagir.
Por Thaís, Dayse, Milena, Gisele.
E por todas as mulheres que ainda correm risco.
Romper esse ciclo não é escolha.
É uma urgência coletiva. Inadiável.
Vera Ferraço é jornalista com atuação em comunicação pública.