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Capixaba Afronta MC representa a luta de travestis para se afirmar e tomar de volta o que lhes foi tirado

Publicado em: 18/07/2023

Divulgação / Afronta MC

Divulgação / Afronta MC

Uma estrela da música teve o melhor de si roubado por homens brancos que só viam nela, mais que luz e talento, uma fonte de lucro. Essa é a premissa do videoclipe “Dia de pagamento”, de Afronta MC, lançado recentemente nas plataformas digitais, como o YouTube. No cerne da obra musical e visual, estão travestis que reconhecem sua história e potência e lutam para recuperar o que foi tirado não apenas delas, mas também de suas antecessoras.

Realizado com recursos do Fundo de Cultura do Estado do Espírito Santo (Funcultura), da Secretaria da Cultura (Secult), o videoclipe foi dirigido por Tati Rabelo e Rodrigo Linhales, da Mirabólica Filmes.

De acordo com Tati Rabelo, “Dia de pagamento” revela o que e como é ser travesti em um país como o Brasil, um dos que mais mata pessoas LGBTQIAPN+. “Aqui, a expectativa de vida de uma pessoa trans é de 35 anos contra 75 da população cis. Para onde vão esses 40 anos? Quantas potencialidades são perdidas e ceifadas em nossa comunidade? Afronta disse que essa música é muito importante para ela porque fala sobre receber de volta, de forma material e imaterial, todo o tesouro roubado das travestis desta nação. É dia de pagamento”, observa.

Autora e intérprete da música, Afronta afirma que sempre teve uma paixão especial por videoclipes. Segundo ela, desde que se tornou artista, realizar esse tipo de produção tem lhe proporcionado muita satisfação, uma vez que, por meio do videoclipe, pode também se dedicar a outros interesses e aptidões que vão além da música e, para ela, têm muita importância: atuar e escrever.

“Adoro todo o processo, desde a pré-produção à pós, divulgando o trabalho, mas a etapa de gravação é maravilhosa, por poder viver na pele cada cena. É um processo bem trabalhoso e cansativo, mas vale muito a pena, especialmente quando se está acompanhada por uma equipe tão incrível quanto a que tive. Desde minhas irmãs e mães, às pessoas que produziram todo o audiovisual”, ressalta a artista, que atualmente concorre a três categorias do Prêmio da Música Capixaba.

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Quanto à importância de uma obra audiovisual para o trabalho de uma artista da música, Afronta – que se apresenta como MC e atriz – conta ter crescido assistindo às maiores artistas da música pop mundial, que criaram momentos icônicos nas telas por meio de seus videoclipes.

“A união da música com a imagem é algo mágico. A música, por si, já diz muito. Porém, quando vem acompanhada de um videoclipe, produz toda uma identificação também com a maneira como a artista se coloca estética e visualmente. Se dependesse de mim, eu faria um videoclipe para todas as minhas músicas”, afirma a artista – lamentando infelizmente não dispor de recursos para isso.

De qualquer modo, ela ressalta, videoclipes exercem um importante papel para consolidar seu trabalho. “Isso é essencial para a artista que almejo ser e está em construção. Como travesti, preta e viva no Brasil, fazendo arte, fazendo rap, música, vejo no meu trabalho um meio de comunicar quem eu sou. Um videoclipe me permite mostrar isso ainda mais, compartilhando com o mundo roupas impecáveis, feitas pelas mãos de travestis, que juntas lutam contra vilões. Toda essa produção, os cabelos, as maquiagens, os sons, as imagens foram feitas para mostrar ao mundo que Afronta, na verdade, é muito mais que o vulgo de uma MC capixaba. É, sobretudo, uma mensagem.”

Assista ao videoclipe:

Início da parceria

Tati Rabelo conta que conheceu Afronta pessoalmente quando estava gravando uma série de vídeos publicitários para a edição 2021 do festival Movimento Cidade, ocasião em que sugeriu que a rapper fosse locutora. A partir desse primeiro contato, surgiu a ideia de realizarem um videoclipe.

A rapper apresentou a música à dupla da Mirabólica Filmes e, juntos, os três desenvolveram o roteiro. A realização do videoclipe recebeu ainda reforço de outra parceria importante: com a produtora Casa de Boneketys, responsável por difundir no Espírito Santo a cena Ballroom – movimento e cultura de resistência e exaltação da população LGBTQIAPN+, negra e periférica.

“Ronalda e Matysha, as meninas da Casa de Boneketys fazem parte da equipe da Afronta, não apenas como corpo de dança que se apresenta com ela no palco. E, como já havíamos trabalhado com elas algumas vezes, queríamos que participassem do clipe. Elas tiveram uma participação fundamental no elenco, interpretando as salvadoras da cantora”, conta Tati Rabelo.

Como locação, a produção utilizou o espaço do Centro Cultural Carmélia Maria de Souza, onde criou um cenário apocalíptico, com uma atmosfera de calabouço, de onde Afronta é libertada por suas salvadoras. E esse cenário, ao mesmo tempo, funciona como simulação de um palco onde a rapper faz seu show, ainda que presa.

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