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Por Bianca Tápias
Existe algo quase hipnótico em uma cozinha profissional em pleno funcionamento. O vapor que sobe, o som contínuo das panelas, os movimentos que parecem coreografados sem nunca terem sido ensaiados. Para quem observa de fora, há beleza no caos organizado, uma sensação de propósito coletivo que transforma o trabalho em espetáculo silencioso.
Durante muito tempo, essa imagem ajudou a construir o imaginário da gastronomia como um território de paixão absoluta, onde intensidade e resistência eram quase sinônimos de vocação. Mas, quando o ritmo desacelera e o barulho diminui, o que permanece não é o
mito – são as pessoas que sustentam tudo aquilo todos os dias.
A cozinha é feita de presença, de corpos que permanecem em pé por horas, de atenção constante, de decisões rápidas tomadas enquanto o tempo parece sempre curto demais. O profissional de cozinha carrega uma responsabilidade que raramente aparece no prato servido: manter o equilíbrio entre técnica, concentração e emoção em um ambiente onde tudo acontece ao mesmo tempo.
Existe, naturalmente, um pacto silencioso neste ofício. Compromisso com horários, com padrões, com a equipe e com algo maior do que o esforço individual. É um tipo de disciplina que nasce do coletivo e que dá sentido ao trabalho. Ainda assim, todo compromisso precisa
respirar em duas direções para continuar saudável, porque a dedicação floresce melhor quando encontra reciprocidade.
O chef, muitas vezes visto apenas como a mente criativa por trás dos pratos, ocupa também um papel profundamente humano: o de conduzir pessoas. E talvez a verdadeira sofisticação da liderança não esteja na autoridade evidente, mas na capacidade de perceber o ritmo da equipe, ajustar expectativas e criar um ambiente onde excelência e respeito coexistem de forma natural, quase orgânica.
Há também o olhar do gestor, menos visível, porém decisivo. É ele quem estabelece o tom emocional do espaço, definindo se a cozinha será apenas eficiente ou verdadeiramente sustentável ao longo do tempo. Justiça, nesse contexto, não se limita a regras escritas, mas aparece nos pequenos gestos cotidianos, como na escuta, na clareza das relações e na abertura para conversas que nem sempre são fáceis, mas quase sempre necessárias.
Em mercados menores, como o do Espírito Santo, onde trajetórias se cruzam com frequência e os caminhos profissionais raramente são anônimos, a forma como se fala sobre o outro ganha ainda mais peso. Reputações nascem e se transformam em conversas discretas, e por isso talvez seja ainda mais importante cultivar cuidado também nas narrativas que circulam fora das cozinhas.
Com o tempo, torna-se evidente que a evolução da gastronomia não acontece apenas nos ingredientes ou nas técnicas, mas na maneira como as pessoas escolhem trabalhar juntas. Ambientes onde existe espaço para diálogo tendem a produzir não só melhores resultados, mas relações mais duradouras e, curiosamente, cozinhas mais criativas.
Porque, no fim, cozinhar sempre foi sobre cuidado. Cuidado com o tempo, com o alimento, com quem vai receber aquilo à mesa. Talvez a maturidade do ofício esteja justamente em ampliar esse gesto, permitindo que o mesmo cuidado também alcance quem permanece atrás do passe, sustentando, em silêncio, tudo aquilo que o público aprende a admirar.