Por: Gabriel Harchbart
A decisão da Suprema Corte dos EUA contra uma parte do “tarifaço” atribuído ao Trump gerou um efeito imediato: alívio de tarifa em alguns fluxos e reabertura de conversas comerciais que estavam travadas. Para empresas do Espírito Santo, isso é especialmente relevante porque os EUA seguem sendo um destino importante das exportações capixabas em cadeias específicas.
Só que, do ponto de vista de gestão, o ponto central não é a manchete. É a lição:
Se a sua estratégia depende de estabilidade política externa, você não tem estratégia — você tem esperança.
A tarifa diminuir ajuda. Mas o risco não some. O que muda é o jogo de curto prazo. E é exatamente nessa janela que muita empresa erra: comemora, volta a vender, e deixa tudo como estava. A gestão madura faz o oposto: usa o alívio para transformar vulnerabilidade em método.
O que isso muda para empresas do ES
O ES exporta para os EUA um mix concentrado em setores com dinâmicas bem diferentes de margem, prazo e poder de repasse: commodities e semicommodities, produtos com logística pesada, itens com concorrência global e cadeias em que o comprador tem múltiplas alternativas.
Quando a tarifa cai, três coisas tendem a acontecer:
- Preço volta a fechar conta
O que estava no limite de margem volta a ser viável. O cliente reabre pedido, o importador recalcula, e o “não” vira “vamos conversar”.
- Pedido represado volta para a mesa
Negociações que ficaram em espera por meses reaparecem. Em muitos casos, não é demanda nova — é demanda suspensa.
- A pressão por prazo e condição aumenta
O comprador quer capturar a vantagem rápido: pede desconto, prazo maior, e quer garantia de entrega.
O erro clássico: tratar isso como “normalidade”
O cenário melhorou, mas não virou estabilidade. Tarifa, câmbio, frete e política comercial podem mudar de novo, com velocidade. Se a empresa não criar governança para isso, ela volta ao ciclo:
- choque externo
- improviso
- desconto para salvar volume
- erosão de margem
- estresse de caixa
- corte errado
- perda de competitividade
O playbook de gestão para transformar alívio em vantagem
- Reprecificação com gatilhos, não com achismo
Se você vende para fora, seu preço precisa ter regra de atualização. Gatilhos objetivos para tarifa, câmbio, frete e prazo. Sem isso, cada mudança vira briga e cada contrato vira exceção.
- Renegociação imediata do que travou
Volte para a base e reative negociações com proposta clara: novo preço, novo prazo, novo compromisso operacional. O mercado premia quem normaliza rápido.
- Mapa de exposição por produto e enquadramento
O mesmo “produto” pode cair em regimes diferentes dependendo de classificação, documentação e cadeia. Gestão aqui é processo e conformidade: nada de informalidade.
- Cenários simples e decisões pré-aprovadas
Monte três cenários e amarre decisões:
- cenário conservador (tarifa volta a subir)
- cenário base (tarifa atual)
- cenário agressivo (condição melhora)
Para cada um: o que repassa, o que corta, o que pausa, o que acelera. Isso evita pânico e protege margem.
- Caixa como arma competitiva
Mudança de tarifa mexe com capital de giro. Ajuste ciclo de caixa: renegocie prazo com fornecedor, crie mecanismos de adiantamento com cliente, e trate estoque como decisão financeira — não só operacional.
- Diversificação como portfólio, não como discurso
Se EUA representa fatia material, trate como risco de concentração. Defina metas mínimas reais para 2–3 mercados alternativos e um plano comercial para canais de distribuição nesses mercados. Sem meta, vira “um dia a gente faz”.
- Rotina de risco soberano na agenda executiva
Uma vez por mês, pelo menos: revisar exposição por mercado, dependência de poucos clientes, cláusulas de reajuste, status logístico e indicadores de margem por rota. O que não entra na cadência de gestão não vira prioridade.
A manchete é “tarifa caiu”. A coluna de gestão é outra:
a empresa que opera sem governança para risco externo está sempre a uma canetada de distância de perder margem.
Quem usar essa janela para profissionalizar contrato, pricing, cenários e caixa não vai só vender mais para os EUA. Vai construir uma operação mais antifrágil — e isso vale para qualquer mercado.