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Gastronomia como arte: no Espírito Santo, isso sempre foi a essência

Publicado em: 10/04/2026

Torta Capixaba. Foto: Divulgação/Setur.

Por: Bianca Tápias

 

Nesta semana, muitos meios de comunicação ao redor do mundo têm comentado sobre a proposta da Dinamarca de reconhecer oficialmente a gastronomia como uma forma de arte. A discussão reacende um debate antigo: comida é apenas nutrição ou também expressão cultural? Enquanto alguns lugares começam agora a formalizar essa ideia, no Espírito Santo ela nunca precisou de validação institucional. Por aqui, a cozinha sempre foi mais do que prato.

A gastronomia capixaba nasce do encontro entre povos indígenas, africanos e portugueses, mas se diferencia pela preservação de técnicas e identidades. O maior símbolo disso está em Goiabeiras, onde as paneleiras mantêm viva uma tradição secular: a produção artesanal
das panelas de barro. Cada peça é única, moldada à mão, queimada e selada com saberes passados de geração em geração. Mais do que utensílio, a panela é parte da receita. Ela interfere no sabor, no tempo e até na forma como o prato é servido, assim como uma moldura que também faz parte da obra.

Se existe um prato que sintetiza essa relação entre técnica e expressão, é a moqueca capixaba. Sem dendê e sem leite de coco, ela valoriza o essencial: peixe fresco, coentro, tomate, cebola e urucum. A aparente simplicidade esconde uma complexidade de execução como o ponto do peixe, o equilíbrio dos temperos e o calor da panela. É um prato que não se improvisa.

Durante a Semana Santa, a torta capixaba ganha protagonismo nas cozinhas do estado. Envolve preparo coletivo, escolha cuidadosa dos ingredientes e um conhecimento que passa de geração em geração. Cada família imprime sua versão, como artistas que reinterpretam uma mesma obra.

Hoje, a cena gastronômica capixaba equilibra essa tradição com inovação. Na Ilha das Caieiras, a experiência continua raiz: peixe fresco, preparo à vista e sabor direto da origem. Ao mesmo tempo, chefs contemporâneos reinterpretam ingredientes locais, criando pratos que dialogam com técnicas modernas sem perder identidade e assim o território vira conceito.

A discussão levantada pela Dinamarca é relevante. Reconhecer a gastronomia como arte pode abrir espaço para investimento, pesquisa e valorização cultural, mas no estado, isso já acontece há muito tempo sem precisar de rótulo. Aqui, cozinhar é preservar história, expressar identidade, provocar emoção e criar experiência. Quatro elementos que definem qualquer forma de arte.

No fim das contas, se um prato carrega memória, técnica e emoção, ele ainda é apenas comida ou o Espírito Santo só está lembrando ao mundo algo que sempre esteve claro?

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