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Início de ano no comercial: Gestão antes de motivação

Publicado em: 06/01/2026

Imagem gerada por IA

Por: Gabriel Harchbart

 

Todo começo de ano traz o mesmo ritual: metas novas, discursos mais otimistas, promessas de “agora vai”. No comercial, isso costuma vir acompanhado de uma pressão silenciosa para compensar um período mais lento e “acelerar o trimestre”. O problema é que muita empresa tenta resolver janeiro com energia, quando o que janeiro exige é gestão.

O início do ano é, antes de tudo, um período de recalibração. Não apenas de objetivos, mas do sistema que sustenta a performance: foco, processo, indicadores, cadência e qualidade do pipeline. Sem isso, o time até pode começar forte em atividades, mas o resultado vira uma loteria estatística: muito esforço, pouca conversão e um fim de trimestre marcado por descontos e improviso.

A primeira responsabilidade de gestão, nesse período, é fechar o ano anterior com honestidade. Não com narrativas. Com dados e aprendizado. O que vendeu de verdade? Em quais canais? Para quais perfis de cliente? Por quais razões as oportunidades se perderam? Onde o funil vazou: na qualificação, na proposta, na negociação, no tempo de resposta? O erro comum é tentar “seguir em frente” sem encarar essas respostas. E, quando isso acontece, o ano novo começa com os mesmos problemas do ano velho, só que com metas maiores.

A segunda responsabilidade é definir foco antes de definir pressão. A empresa que entra o ano tentando vender para todo mundo, com discurso genérico e oferta inchada, costuma pagar caro em produtividade. Foco é gestão de recursos escassos: tempo do vendedor, capacidade de atendimento, atenção da liderança, orçamento de aquisição. ICP claro, critérios de qualificação bem definidos e prioridades objetivas são o que impedem o comercial de virar um departamento reativo, correndo atrás de qualquer oportunidade que “pareça boa”.

A terceira responsabilidade é criar ritmo. Comercial sem rotina não tem previsibilidade. E previsibilidade é um produto direto de cadência: prospecção estruturada, disciplina de pipeline, ritos de gestão e padrão de forecast. Quando a liderança não instala esse ritmo, o time oscila entre picos e vales, depende de heróis e entra em modo desespero no fim do mês. Empresas maduras entendem que execução é repetição com método, não esforço aleatório.

Há também um ponto que quase sempre é subestimado: pipeline não é lista de desejos, é um ativo que precisa de governança. Janeiro é o mês de revisar etapas, regras e critérios. Se o CRM permite “etapas genéricas”, se qualquer lead vira oportunidade, se não existe definição clara de próxima ação e data, então o pipeline vira um cemitério de promessas. E um cemitério não faz forecast. A gestão precisa exigir clareza: quais oportunidades estão em andamento, quais estão paradas, qual é o próximo passo, quem é o decisor, qual é a urgência real e por que aquilo faz sentido para o cliente.

Por fim, início de ano é momento de reativar valor com inteligência. Bases antigas, leads não convertidos e clientes inativos costumam ser tratados como “passado”. Mas gestão boa não despreza ativos já adquiridos. Uma campanha curta e bem desenhada de reativação pode gerar reuniões e receita com um custo muito menor do que a obsessão por novas fontes de aquisição. Em janeiro, eficiência vale mais do que volume.

O ponto central é simples: motivação é instável. Sistema é cumulativo. O comercial começa o ano bem quando a liderança troca discursos por estrutura. Menos promessa, mais processo. Menos pressão vazia, mais foco. Menos improviso, mais ritmo.

A pergunta que fica para qualquer gestor é direta: seu comercial vai começar o ano “tentando vender mais” ou vai começar o ano “gerindo melhor”? Porque, no fim, resultados consistentes são consequência de governança — não de empolgação.

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