Foto: Lucas Kiaw
O Espírito Santo volta a integrar o radar da ciência internacional. A médica capixaba Sarha A. L. de Queiroz é autora de um estudo publicado na revista BMC Pediatrics (2026) e indexado na PubMed, base de dados da National Library of Medicine dos Estados Unidos e uma das mais respeitadas plataformas científicas do mundo.
A pesquisa avaliou os efeitos de uma mistura probiótica derivada de kefir em crianças com Transtorno do Espectro Autista (TEA), dentro de uma das áreas mais investigadas pela ciência contemporânea: o eixo intestino-cérebro, que analisa a influência da microbiota intestinal sobre funções neurológicas, metabólicas e comportamentais. O kefir é um alimento fermentado conhecido por conter microrganismos benéficos ao intestino.
A indexação na PubMed confere visibilidade global ao trabalho, permitindo que pesquisadores, universidades e centros de pesquisa internacionais tenham acesso aos dados e às conclusões do estudo.

Foto: Lucas Kiaw
O estudo foi conduzido em formato duplo-cego, randomizado e controlado por placebo — metodologia considerada padrão-ouro em pesquisas clínicas. Ao todo, 182 crianças com autismo, entre 3 e 11 anos, participaram do protocolo ao longo de 90 dias.
Os participantes foram divididos em três grupos: um recebeu placebo (sem probióticos); outro utilizou probiótico derivado de kefir (K11); e o terceiro fez uso do probiótico associado a vitaminas e minerais (K11-TMAX). Nem os pesquisadores nem as famílias sabiam qual intervenção estava sendo administrada durante o período de acompanhamento, o que garantiu neutralidade e controle estatístico.
A pesquisa analisou múltiplos desfechos clínicos e laboratoriais, incluindo comportamento adaptativo, sintomas comportamentais associados ao TEA, marcadores inflamatórios e metabólicos, perfil da microbiota intestinal, além da segurança e tolerabilidade do tratamento. A proposta foi investigar não apenas aspectos comportamentais, mas também alterações biológicas potencialmente associadas ao funcionamento global das crianças avaliadas.
De acordo com os achados descritos no estudo, as crianças que utilizaram os probióticos apresentaram melhora na comunicação, maior autonomia em atividades diárias e redução de comportamentos como irritabilidade, ansiedade e isolamento.
Os exames laboratoriais também indicaram redução de marcadores inflamatórios, melhora em indicadores metabólicos e aumento de bactérias benéficas intestinais. No grupo placebo, tais mudanças não foram observadas.
O protocolo foi considerado seguro e bem tolerado, com registro apenas de efeitos leves e transitórios, como desconforto gastrointestinal discreto.
O estudo reforça uma linha de investigação que vem ganhando força na literatura médica internacional: o papel da microbiota intestinal na regulação de processos neurobiológicos e comportamentais. Embora a pesquisa não proponha a substituição de terapias convencionais, os dados contribuem para o avanço de abordagens complementares e ampliam o debate científico sobre estratégias integrativas no cuidado ao TEA.
Para a médica, a publicação representa um passo importante. “Abre caminhos para novos tratamentos complementares, mais seguros e integrados. Ajuda as famílias e profissionais a pensarem o autismo de forma mais ampla, envolvendo corpo e cérebro”, afirma.
Sarha Andrade Lobo de Queiroz possui trajetória acadêmica e científica de destaque. É médica formada pela Universidade Vila Velha (UVV), com residência em Psiquiatria pelo Instituto Capixaba de Ensino, Pesquisa e Inovação. É mestre e doutora em Ciências Farmacêuticas pela Universidade Vila Velha, atualmente pós-doutoranda com foco de pesquisa no eixo intestino-cérebro, além de atuar como preceptora da Residência Médica em Psiquiatria do ICEPi SESA.
Também é professora de Psiquiatria da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES) e integrante da diretoria da Associação de Psiquiatria do Espírito Santo.