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Por: Gabriel Harchbart
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A morte de Dayse Barbosa, comandante da Guarda Municipal de Vitória, não é apenas uma tragédia criminal. É também um espelho desconfortável para qualquer líder, empresa ou instituição que ainda insiste em chamar de “problema pessoal” aquilo que já virou risco humano, organizacional e social. A Prefeitura de Vitória decretou luto oficial de três dias e destacou sua trajetória na defesa dos direitos das mulheres. O Ministério da Justiça também ressaltou o peso simbólico de sua história como a primeira mulher a comandar a corporação.
O ponto mais incômodo é que a maioria das organizações ainda opera com uma cegueira conveniente: só reconhece risco quando ele explode. Antes disso, chama de “assunto íntimo”, “questão do casal”, “tema fora da empresa”. Só que violência contra a mulher não respeita organograma, expediente ou crachá. Ela atravessa saúde mental, segurança, produtividade, clima, continuidade operacional e responsabilidade institucional. O que parece estar fora da gestão, na prática, já entrou nela há muito tempo.
Há uma lição ainda mais dura no contraste recente de Vitória. Poucos dias antes do crime, a própria prefeitura anunciava mais de 600 dias sem feminicídios na capital e atribuía esse resultado a políticas integradas entre segurança, assistência social, saúde, educação, acolhimento e monitoramento de risco. A mensagem era clara: prevenção não nasce de discurso; nasce de coordenação, processo, prioridade e rede de proteção. Gestão pública séria entendeu isso. Muita gestão privada ainda não.
Os dados nacionais mostram por que tratar esse tema como exceção é uma forma de omissão. Nos últimos anos, o padrão predominante dos feminicídios no Brasil foi o de mulheres mortas por companheiros ou ex-companheiros. O próprio Fórum Brasileiro de Segurança Pública descreve o feminicídio como o ponto final de uma escalada anterior de controle, ameaça e violência. Em outras palavras: quase nunca é um raio em céu azul. É um risco que já vinha dando sinais.
É aqui que entra a falha das organizações. Empresa que diz cuidar de pessoas, mas não tem protocolo, canal confiável, liderança treinada, fluxo de acolhimento e proteção mínima, não cuida de pessoas de verdade. Cuida de performance até o problema ficar feio demais para esconder. A legislação brasileira já prevê medidas de prevenção e combate ao assédio e a outras formas de violência no ambiente de trabalho. O mínimo legal já existe. O que falta, muitas vezes, é vontade gerencial.
O caso Dayse expõe algo que líderes não gostam de admitir: neutralidade, nesse campo, costuma ser só outro nome para omissão. Quando uma organização finge que violência é assunto privado demais para ser visto, ela não está sendo respeitosa. Está sendo covarde. E gestão covarde não protege cultura, não protege time, não protege resultado. No fim, não protege ninguém.