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O que a cozinha revela quando o glamour sai de cena

Publicado em: 06/03/2026

Foto: Unsplash

Por: Bianca Tápias

 

Essa semana, alguns posts começaram a circular com força entre cozinheiros, jornalistas e gente que acompanha gastronomia de perto. Nele, Jason Ignacio White, ex-chefe do laboratório de fermentação do Noma – restaurante que por anos simbolizou o auge da alta gastronomia mundial – decidiu compartilhar relatos e mensagens sobre episódios de abuso, agressões e pressões extremas dentro de cozinhas consideradas “templos” da culinária.

Não surpreende que a repercussão tenha sido imediata. Quando um restaurante do tamanho e da influência do Noma aparece associado a relatos assim, o choque é inevitável. Mas talvez o incômodo maior venha de outro lugar: da sensação de que, apesar da distância geográfica e do prestígio envolvido, aquilo não é exatamente uma novidade para quem já viveu o dia a dia de uma cozinha profissional.

Porque, embora muitos ainda prefiram tratar esses episódios como exceções, sabemos que histórias como humilhação, gritos, agressões verbais e relações de poder baseadas no medo fazem parte de uma cultura que por muito tempo foi normalizada dentro da gastronomia. Durante décadas, criou-se uma narrativa quase heróica em torno disso: a brigada rígida, o comando incontestável, o ambiente de pressão extrema como preço inevitável para alcançar excelência.

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O problema é que, quando essa lógica se perpetua sem questionamento, a linha entre disciplina e abuso se torna perigosamente tênue. E é justamente aqui que talvez esteja a reflexão mais necessária. É fácil olhar para um restaurante em Copenhagen, a milhares de quilômetros de distância, e tratar o assunto como se fosse algo distante – um problema de outra realidade, de outra cultura, de outra escala. Mas e se, antes disso, a gente olhasse para as cozinhas mais próximas? Para os restaurantes onde trabalhamos hoje, para as brigadas das quais fazemos parte, para as relações que construímos diariamente dentro de um espaço que, no fim das contas, deveria ser também um lugar de aprendizado, colaboração e respeito.

Em um momento em que tantas cenas gastronômicas locais estão amadurecendo – inclusive aqui no Espírito Santo – talvez o verdadeiro avanço da gastronomia não esteja apenas em técnica, criatividade e sofisticação, mas na coragem de quebrar ciclos que durante muito tempo foram tratados como parte natural da profissão.

Cozinhas sempre foram lugares de intensidade, mas intensidade não precisa significar violência. E talvez a pergunta que realmente valha a pena fazer depois de ler histórias como essa não seja apenas o que aconteceu em um restaurante famoso do outro lado do mundo, mas que tipo de cozinha estamos ajudando a construir ou a perpetuar, todos os dias, bem aqui.

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