Por: Ivy Coutinho
Há histórias que nascem dentro da cozinha. Não pelo cheiro de comida fresca ou pelas receitas passadas entre gerações, mas porque é ali que muitas mulheres aprenderam a transformar amor em sustento, cuidado em força e afeto em legado. A história de Ana Carolina Giori Ferrão, a Carol Ferrão, é exatamente assim.
Nascida em Vitória, em 1987, Carol cresceu cercada por mulheres fortes. Filha de Elder Magno Gava Ferrão e Maria Aparecida Giori, neta de dona Tereza e dona Célia, duas descendentes de italianos que carregavam nas mãos o talento para cozinhar e no coração a missão de cuidar da família.
Mas antes mesmo de ser Carol, ela virou Anita. Foi assim que dona Tereza a chamou pela primeira vez ainda bebê. Um apelido carinhoso que atravessou décadas e se transformou em identidade. Durante muitos anos, ela era conhecida como “a Anita da Tereza”. Um nome que carregava pertencimento, afeto e memória.

Ana Carolina com a avó, Teresa. Foto: Arquivo pessoal
Carol estudou nas melhores escolas do Estado, formou-se em Biologia, fez pós-graduação em Gestão e Educação Ambiental e acreditava que seguiria carreira na área. Casou-se com Ramon Oliveira Siqueira ainda muito jovem e, aos 24 anos, tornou-se mãe do Pietro.
A vida, porém, tinha outros planos. Depois da suspeita do diagnóstico de autismo do filho, ela tomou uma decisão que mudaria completamente sua trajetória. Deixou o emprego para cuidar integralmente do menino e mergulhou no universo da maternidade atípica. Precisava aprender sobre o filho, ajudá-lo a se desenvolver e estar presente.

Ana Carolina. Foto: Arquivo pessoal
Foi nesse período, dentro da cozinha de casa, numa mesa de plástico simples e com uma geladeira pequena, que nasceu o primeiro capítulo da confeitaria.
Ela começou fazendo doces sob encomenda. Sem estrutura, sem grandes recursos, mas com algo que dinheiro nenhum compra: coragem.
A primeira grande oportunidade veio pelas mãos de outras mulheres. Jana Tanuri indicou o trabalho de Carol para Graziane, dona de um restaurante em Jardim Camburi. Graziane fez uma degustação na cozinha da casa dela e encomendou 800 doces para um casamento em Minas Gerais. Pagou antecipadamente para ajudá-la a comprar o que precisava. Com aquele dinheiro, ela comprou a primeira mesa com tampo de granito que teria em casa.
Foi ali que a história começou a ganhar forma. No meio desse processo, Carol engravidou da segunda filha. Ao mesmo tempo, dona Tereza descobriu um câncer. Sem saber quanto tempo ainda teriam juntas, Carol decidiu homenagear a avó criando a Confeitaria da Anita, transformando o apelido de infância em marca.
Pouco depois, descobriu que o bebê também seria uma menina. E o nome não poderia ser outro: Anita.
Antes do nascimento da filha, a confeiteira ainda realizou o sonho da avó. Organizou o casamento na igreja em apenas 60 dias para que dona Tereza pudesse ver uma neta se casar. Foi a própria avó quem levou as alianças.

Com a filha, Anita. Foto: Arquivo pessoal
Dona Tereza ainda viu a bisneta nascer, participar do batizado e completar um ano de vida antes de partir, em 2016.
E foi justamente em meio ao caos da maternidade, da doença e dos desafios financeiros que nasceu o produto que mudaria a vida da família: o alfajor.
A receita surgiu quase por acaso. Um erro no preparo, uma pausa para cuidar da filha pequena e uma tentativa improvisada de não desperdiçar ingredientes acabaram criando o alfajor que hoje se tornou marca registrada da empresa. Carol costuma dizer que foi Deus quem conduziu suas mãos naquele dia.
A pandemia também exigiu reinvenção. Com contratos cancelados e insegurança financeira, ela criou a primeira festa junina na caixa do Estado, o “Arraiá do Vai Passar”, projeto que viralizou e ajudou a manter o negócio vivo em um dos momentos mais difíceis.

Ana Carolina, Anita (filha), Ramon (marido) e Pietro (filho). Foto: Arquivo pessoal
Vieram também os recomeços. Uma cafeteria aberta e fechada poucos meses depois. A decisão de voltar ao mercado corporativo para aprender a vender para grandes empresas. O apoio de empresários que acreditaram em seu trabalho. E, então, a grande virada.
Hoje, a marca especializada em alfajores artesanais atende grandes empresas, produz milhares de unidades semanalmente e já enviou produtos para lugares distantes como Finlândia e diferentes cidades brasileiras.
Mas talvez o mais bonito na história da Carol seja perceber que, apesar do crescimento, ela nunca perdeu o motivo pelo qual começou. Nunca foi apenas sobre doces. Foi sobre permanecer perto dos filhos. Sobre transformar o cuidado em trabalho. Sobre honrar mulheres que sustentaram suas famílias através da cozinha. Sobre construir uma história onde amor e coragem caminham juntos.
Ela costuma dizer que o alfajor é o jeito dela de levar amor para o mundo. E talvez seja exatamente isso que faz tanta gente se conectar com a Anita. Porque quando existe verdade, afeto e propósito, o sabor vai muito além da receita.