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O mercado imobiliário, não diferente dos demais, vivencia transformações relevantes, impulsionadas por inovações tecnológicas que redefinem muitos paradigmas tradicionais, especialmente a forma como entendemos a propriedade e realizamos transações. Uma das grandes inovações é a tokenização de ativos, uma aplicação prática da tecnologia blockchain que dinamiza os investimentos e traz novos horizontes para o setor imobiliário.
Por séculos, a propriedade privada esteve atrelada a processos burocráticos, onde o registro em cartórios, as escrituras físicas e a presença de intermediários eram indispensáveis para validar a posse de um imóvel. O processo, apesar de robusto do ponto de vista da segurança jurídica, sempre foi marcado por lentidão, custos elevados e uma certa opacidade nas transações. O papel do cartório, por exemplo, tem sido fundamental na autenticação de documentos e garantia da legalidade das operações, mas não sem gerar entraves operacionais e financeiros.
A tokenização de ativos surge, nesse contexto, como uma revolução. Trata-se da transformação de um bem físico, como um imóvel, em representações digitais chamadas tokens, que são registrados em uma blockchain. Cada token equivale a uma fração do ativo real, permitindo que o imóvel seja “dividido” em pequenas partes, que podem ser compradas, vendidas ou transferidas com facilidade. Isso significa que um investidor pode adquirir uma fração de um edifício comercial, de um terreno ou até de um empreendimento em desenvolvimento, democratizando o acesso a investimentos antes restritos a grandes capitalistas ou fundos imobiliários.
A tecnologia blockchain, por sua vez, funciona como um livro-razão digital descentralizado e imutável. Nele, todas as transações são registradas de forma transparente e segura, eliminando a necessidade de intermediários tradicionais, como bancos e cartórios. A confiabilidade, que antes dependia de instituições centralizadas, agora é garantida por protocolos criptográficos avançados e pela própria estrutura da rede blockchain, que impede alterações nos registros sem o consenso dos participantes.
Nesse cenário, o DREX (Digital Real Electronic Exchange), iniciativa do Banco Central do Brasil para criar uma versão digital do real, promete impulsionar ainda mais a transformação do mercado imobiliário. O DREX possibilitará transações financeiras mais rápidas, seguras e com menor custo, integrando-se facilmente com plataformas de tokenização. Com ele, será possível liquidar operações de compra e venda de tokens imobiliários em tempo real, sem a necessidade de intermediários financeiros tradicionais, aumentando a eficiência do processo e reduzindo o risco de liquidação. O DREX, ao operar em uma infraestrutura de registro distribuído, facilita a integração com smart contracts, automatizando processos como o pagamento de aluguéis, distribuição de dividendos e transferências de propriedade.
O impacto dessa tecnologia vai além da simplificação dos processos. A tokenização aumenta a liquidez dos ativos imobiliários, permitindo que imóveis, tradicionalmente considerados investimentos de longo prazo e baixa liquidez, possam ser negociados com a agilidade de ações na bolsa de valores. Isso abre caminho para novos modelos de negócios, como plataformas de crowdfunding imobiliário, onde investidores de diferentes partes do mundo podem participar de projetos, com total transparência sobre o desempenho e o andamento dos investimentos.
No Brasil, algumas plataformas já estão se destacando nesse ecossistema inovador, como:
Liqi Digital Assets: uma das pioneiras na tokenização de ativos no país, permitindo a criação e negociação de tokens lastreados em diversos tipos de ativos, incluindo imóveis. A plataforma oferece um ambiente seguro e regulamentado para investidores e emissores.
Netspaces: especializada em investimentos imobiliários por meio da tokenização, a Netspaces possibilita que investidores adquiram frações de imóveis, promovendo maior acessibilidade e liquidez ao mercado.
BlockBR: focada na criação de soluções financeiras baseadas em blockchain, a BlockBR trabalha com a tokenização de ativos reais, incluindo propriedades imobiliárias, facilitando o acesso de investidores a oportunidades antes restritas.
Entretanto, essa transformação não está isenta de desafios. O arcabouço regulatório ainda precisa evoluir para acompanhar o avanço da tecnologia. Questões como a equivalência legal de um token em relação a uma escritura tradicional, a proteção dos direitos dos investidores e a definição da jurisdição aplicável em disputas internacionais ainda geram debates acalorados. A adaptação do sistema jurídico e a criação de normas específicas para ativos digitais são essenciais para garantir a segurança jurídica e a confiança dos participantes do mercado.
Estamos, portanto, diante de uma mudança de paradigma. A tokenização de ativos, combinada com o potencial do DREX e a expansão de plataformas inovadoras no Brasil, não apenas moderniza o mercado imobiliário, mas também redefine a própria essência da propriedade. O que antes era representado por documentos em papel, carimbos e assinaturas, agora pode ser simbolizado por códigos digitais, acessíveis de qualquer lugar do mundo, com segurança e transparência sem precedentes. O futuro da propriedade é digital, descentralizado e inclusivo, refletindo um novo tempo em que tecnologia e inovação caminham lado a lado para transformar negócios e investimentos.