Filipe Machado – Engenheiro civil e ambiental
Engenheiro civil e ambiental Filipe Machado defende que a engenharia precisa participar das decisões antes que falhas técnicas se transformem em prejuízos, disputas ou obras paralisadas
Durante muitos anos, a engenharia foi procurada principalmente quando o problema já estava instalado: uma infiltração que se agravou, uma obra que ultrapassou o orçamento, uma fachada que começou a apresentar manifestações patológicas, um imóvel envolvido em disputa ou um serviço cuja qualidade passou a ser questionada.
Essa lógica vem mudando. Na avaliação do engenheiro civil e ambiental Filipe Machado, decisões envolvendo imóveis, obras e patrimônio exigem cada vez mais uma análise técnica antes da contratação, do investimento ou do conflito. “Muitas vezes, o prejuízo não acontece porque faltou dinheiro para executar uma obra. Acontece porque uma decisão de alto valor foi tomada sem informação técnica suficiente”, destaca Machado.
A conclusão é resultado de uma trajetória profissional construída justamente em situações nas quais engenharia, patrimônio e tomada de decisão se encontram. Ao longo da carreira, Machado acumulou experiência em perícias, inspeções, avaliações de imóveis, auditorias de obras e análises técnicas para condomínios, empresas, proprietários e advogados.
Hoje, à frente da Filipe Machado Engenharia, essa experiência é aplicada também antes da execução dos serviços, com o objetivo de reduzir incertezas e dar segurança a decisões que envolvem patrimônio e recursos relevantes.
Um dos principais pontos defendidos pelo engenheiro é que diversas obras não ficam paralisadas exclusivamente por falta de recursos. Em muitos casos, há orçamento disponível, mas faltam respostas para perguntas básicas: o que realmente precisa ser executado, qual serviço é prioritário, se o orçamento apresentado corresponde ao problema existente, se as empresas concorrentes estão oferecendo o mesmo escopo e quem irá conferir se aquilo que foi contratado foi de fato executado.
Quando essas respostas não estão claras, decisões acabam sendo adiadas. Em outros casos, a obra começa mesmo assim e os problemas aparecem durante a execução. “Uma proposta mais barata não necessariamente representa uma contratação melhor. Se cada empresa estiver considerando um escopo diferente, comparar apenas o preço não permite saber qual delas realmente está oferecendo a melhor solução”, pontua Filipe.
É nesse intervalo entre identificar o problema e decidir o que fazer que a engenharia vem ganhando espaço.
Essa forma de atuação ganhou dimensão nos últimos anos. Trabalhos conduzidos pela equipe da Filipe Machado Engenharia já estiveram envolvidos em mais de R$ 18 milhões em obras destravadas, incluindo situações em que serviços estavam interrompidos havia meses ou até anos.
O trabalho não significa simplesmente executar a obra. Antes disso, pode envolver inspeções, análise de documentos, definição de escopo, levantamento de custos, análise de propostas e identificação dos pontos que impedem uma contratação ou execução segura.
“O laudo continua sendo fundamental quando ele é necessário. Mas, muitas vezes, o cliente não precisa somente saber qual é o problema. Ele precisa entender quais decisões deve tomar depois que o problema foi identificado”, considera o engenheiro.
Em condomínios, essa situação ganha uma dimensão ainda maior. Síndicos e conselhos precisam tomar decisões relacionadas a fachadas, impermeabilização, estruturas, coberturas, instalações e outros sistemas da edificação. Uma única contratação pode envolver centenas de milhares de reais, enquanto quem decide normalmente não possui formação técnica em engenharia.
O desafio, segundo Machado, é transformar informações altamente técnicas em elementos compreensíveis para quem precisa decidir.
Em um dos trabalhos conduzidos pelo escritório, uma inspeção predial e o planejamento das intervenções identificaram aproximadamente R$ 428 mil em itens considerados críticos, permitindo ao condomínio organizar prioridades e direcionar recursos para os problemas que exigiam atenção primeiro.
“Quando tudo é apresentado como urgente, nada é prioridade. Parte importante da engenharia é separar aquilo que precisa ser feito imediatamente do que pode ser planejado para os próximos meses ou anos”, afirma Filipe.
Essa organização interfere diretamente no planejamento financeiro dos condomínios e pode evitar decisões precipitadas, contratações mal dimensionadas e intervenções sem prioridade técnica.
A mesma lógica se aplica a imóveis de grande valor. Compra, venda, inventário, desapropriação, divisão patrimonial e decisões empresariais frequentemente utilizam valores imobiliários como base. Uma diferença aparentemente pequena na avaliação pode representar centenas de milhares ou milhões de reais.
“Um imóvel não vale necessariamente aquilo que o proprietário gostaria de receber nem aquilo que outro imóvel está sendo anunciado na internet. Uma avaliação técnica precisa considerar as características do bem, sua localização, o mercado e uma metodologia adequada”, ressaltou.
Essa atuação aproxima a engenharia também de escritórios de advocacia, famílias e empresas que precisam de suporte técnico para decisões patrimoniais.
Problemas envolvendo construção frequentemente acabam em negociações, perícias ou processos judiciais. Nessas situações, o advogado domina a estratégia jurídica, enquanto o engenheiro precisa transformar manifestações físicas, documentos, projetos, medições e normas técnicas em evidências capazes de sustentar uma decisão.
“Existem discussões que parecem jurídicas, mas começam com uma pergunta técnica. Saber se existe um vício construtivo, qual é sua causa, quanto custa reparar ou qual é o valor de determinado imóvel são perguntas que precisam ser respondidas tecnicamente antes de serem discutidas juridicamente”, afirma.
É também por esse motivo que a empresa atua em conjunto com advogados em perícias, avaliações e assistências técnicas.
Boa parte da trajetória profissional de Filipe Machado foi construída em perícias e na análise de problemas já existentes. Com o tempo, a repetição das ocorrências revelou um padrão: muitos conflitos poderiam ter sido reduzidos caso houvesse participação técnica em fases anteriores.
Uma obra contratada com escopo inadequado. Um serviço recebido sem inspeção suficiente. Uma manutenção adiada. Uma proposta analisada apenas pelo preço. Uma alteração executada sem avaliação das consequências.
“Depois de analisar muitos problemas, começa a ficar evidente que parte deles poderia ser evitada. É por isso que hoje acredito muito na engenharia utilizada antes do conflito”, destaca.
A atuação empresarial foi acompanhada pela participação em entidades da engenharia capixaba. Ao longo da carreira, Filipe Machado exerceu funções no Crea-ES, presidiu entidade profissional e assumiu funções na Mútua-ES, além de desenvolver iniciativas voltadas à formação, ao mercado e à valorização dos engenheiros.
Também é autor do projeto e livro “Sou Engenheiro e Agora?”, criado para discutir carreira, empreendedorismo e desenvolvimento profissional.
Esse contato com profissionais em diferentes fases da carreira reforçou outra convicção: dominar tecnicamente uma área é apenas uma parte da atividade profissional. O engenheiro também precisa interpretar problemas, comunicar conclusões e compreender o impacto econômico daquilo que analisa.
O crescimento das cidades, o envelhecimento das edificações e a valorização dos imóveis tendem a aumentar a responsabilidade envolvida em decisões relacionadas ao patrimônio. Nesse cenário, Machado acredita que a engenharia terá presença cada vez maior fora do canteiro de obras: auditando, avaliando, investigando, planejando e orientando decisões.
“Engenharia não deveria ser chamada apenas quando alguma coisa quebra. Quanto maior o patrimônio e maior a decisão financeira envolvida, mais importante é ter informação técnica antes de decidir”, conclui Filipe.