Com mais de 30 anos dedicados à educação musical, Gislene Bohry encontrou na própria experiência com a perda da voz um novo campo de atuação profissional. Educadora musical, pianista, musicoterapeuta, palestrante e mentora da voz, ela mantém uma escola de música em São Gabriel da Palha, no Noroeste do Espírito Santo, e agora amplia o trabalho com a Academia da Voz, voltada ao desenvolvimento, à consciência e ao uso saudável da voz.
Em entrevista ao Orgulho Capixaba, Gislene contou que sua relação com a música começou ainda na infância, influenciada pela mãe e pela convivência com a música da igreja. Aos dois anos, já cantava hinos completos. Aos 11, teve a oportunidade de iniciar os estudos de piano, experiência que ampliou sua relação com a música e a levou a atuar em igrejas e diferentes formações vocais, como quartetos, grupos mistos e corais.
“Sou uma pessoa apaixonada pela música e que respira música. Comecei a estudar piano aos 11 anos e, há mais de 30 anos, atuo como educadora musical. Hoje também sou musicoterapeuta, palestrante e mentora da voz”, afirma Gislene, que passou a reunir diferentes áreas de conhecimento em seu trabalho com música, comunicação e desenvolvimento vocal.

A escola de música surgiu inicialmente em Belo Horizonte, quando Gislene havia acabado de ser mãe e decidiu começar a dar aulas em casa para ficar mais próxima do filho. Em 2005, ao retornar para São Gabriel da Palha, sua cidade de origem, ela deu continuidade ao trabalho e, ao longo dos anos, ampliou sua formação como educadora musical. Atualmente, oferece aulas de piano, teclado, flauta doce, técnica vocal e musicalização.
Para Gislene, o ensino musical não se limita ao aprendizado de instrumentos ou técnicas. Ela aponta efeitos da música no desenvolvimento da atenção, concentração, memória, coordenação motora, raciocínio lógico, criatividade, expressão e socialização. Entre adultos, também destaca aspectos como bem-estar, autoestima e qualidade de vida. Sua formação em Musicoterapia passou a integrar essa abordagem, embora atualmente ela não atue diretamente na área por falta de agenda.
A criação da Mentoria da Voz nasceu de uma situação que marcou a própria vida profissional de Gislene. Em 2012, em meio a uma rotina com diferentes atividades como educadora, professora e regente de corais, ela começou a apresentar rouquidão e perda da voz. Procurou atendimento médico e foi encaminhada para fonoterapia, onde passou a trabalhar respiração, exercícios vocais e mudanças de hábitos.
“Isso mudou completamente minha forma de falar, de respirar e outras coisas que aprendi que carrego para a vida toda. Hoje não fico rouca mais e tenho minha voz de volta, meu patrimônio”, conta. A experiência fez com que ela percebesse a necessidade de levar para outras pessoas parte dos conhecimentos adquiridos durante o processo de recuperação e de sua experiência na educação musical.
A partir daí, a voz passou a ocupar um espaço central em sua atuação. A proposta da Mentoria da Voz é trabalhar de forma individualizada aspectos relacionados à consciência vocal, respiração, exercícios, aquecimento e formas de utilizar a voz de maneira mais saudável. Os encontros duram aproximadamente 45 minutos e podem ocorrer semanalmente ou de acordo com a disponibilidade do mentorado. Gislene também disponibiliza exercícios em áudio personalizados para a prática entre os encontros.
O trabalho é direcionado principalmente a pessoas que utilizam a voz como ferramenta profissional, entre elas professores, palestrantes, educadores, gestores, líderes e outros profissionais que precisam se comunicar com frequência. Entre as queixas mais comuns estão cansaço vocal, rouquidão, tensão ao falar, respiração inadequada e falta de consciência sobre a própria utilização da voz.
“A voz é um patrimônio porque ela nos acompanha ao longo de toda a vida e é uma das principais formas que temos de nos comunicar com o mundo. Muitas pessoas só percebem o valor da voz quando começam a perdê-la ou quando ela apresenta algum problema”, explica.
A hidratação, a respiração, a articulação e a percepção da própria voz fazem parte desse processo. Gislene destaca que o objetivo não é simplesmente buscar uma voz mais forte ou falar mais alto, mas desenvolver equilíbrio e consciência para diferentes situações de comunicação. Para ela, uma boa dicção contribui para a clareza, mas a comunicação também envolve aspectos como entonação e qualidade vocal.

O trabalho também ganhou espaço por meio de palestras e oficinas voltadas a profissionais e equipes. A iniciativa surgiu da combinação de sua experiência como educadora musical, dos mais de 20 anos como regente de corais e da vivência com a própria voz. A proposta é levar informações práticas sobre uso vocal, comunicação e prevenção para professores, empresas, gestores e outras equipes que dependem da voz no cotidiano profissional.
Entre os resultados que observa nos mentorados, Gislene destaca principalmente o desenvolvimento da consciência. Segundo ela, as pessoas passam a perceber hábitos que prejudicam a comunicação, ganham mais segurança ao falar e compreendem que o cuidado com a voz precisa fazer parte da rotina. A mudança, em sua avaliação, acontece quando a pessoa deixa de apenas utilizar a voz e passa a conhecer melhor seus recursos e limites.
Ao olhar para mais de três décadas de atuação, Gislene aponta como principal motivo de satisfação as experiências vividas ao lado dos alunos e as mudanças que acompanhou por meio da música. Ela também considera significativa a possibilidade de transformar a própria experiência com a perda da voz em uma nova frente profissional. Agora, pretende ampliar o alcance desse trabalho por meio da Mentoria da Voz, do Método SOM, de palestras e oficinas.
“Meu próximo passo é ampliar o alcance do meu trabalho. Quero levar a Mentoria da Voz e o Método SOM para mais pessoas, por meio de mentorias, palestras e oficinas”, afirma. A nova fase também está ligada ao projeto MusiViver, nome que pretende dar à sua empresa e que sintetiza a maneira como Gislene passou a reunir música, voz e vida em sua atuação profissional. Um verdeiro Orgulho Capixaba.