Montagem: Arte/Metrópoles com foto de Carlos Nogueira/Prefeitura de Santos
Por: Filipe Machado
Quem passou pelos principais destinos litorâneos nos últimos dias provavelmente viveu uma situação que já começa a se tornar rotina. Torneiras com baixa pressão ou completamente secas e, em alguns casos, interrupções no fornecimento de energia elétrica justamente nos períodos de maior movimento. Esse cenário não se restringe a uma única cidade.
Guarapari é um exemplo recente e bastante visível, mas está longe de ser um caso isolado. Cidades como Guaratuba, no Paraná, localidades turísticas da Bahia como Caraíva e diversos municípios do litoral de Santa Catarina enfrentam problemas semelhantes todos os verões. Em muitos desses lugares, a falta de água vem acompanhada também de instabilidade no fornecimento de energia, agravando ainda mais o impacto para moradores e visitantes.
O problema é estrutural e previsível. As cidades litorâneas foram, em grande parte, dimensionadas para atender uma população fixa relativamente pequena. Durante o verão, feriados prolongados e eventos turísticos, esse número cresce de forma abrupta. A infraestrutura de captação, tratamento, reservação e distribuição de água, assim como as redes de energia, permanece praticamente a mesma, operando no limite da capacidade.
O crescimento urbano ocorreu de maneira acelerada e pouco ordenada. Loteamentos, bairros inteiros, condomínios e empreendimentos turísticos surgiram sem que houvesse a ampliação proporcional da infraestrutura básica. Hoje, o poder público e as concessionárias lidam com sistemas sobrecarregados, tentando atender picos de consumo muito superiores àqueles previstos nos projetos originais.
No Espírito Santo, é importante reconhecer que a Cesan vem realizando investimentos significativos na ampliação e modernização dos sistemas de abastecimento e esgotamento sanitário. Há obras em andamento, melhorias operacionais e expansão de redes em diversos municípios. Ainda assim, mesmo com esses avanços, o desafio permanece grande diante do crescimento urbano acelerado e do aumento expressivo da população sazonal no litoral.
A reação da população é compreensível. A conta de água chega todo mês, assim como a fatura de energia. O pagamento vem antes, é obrigatório e pesa no orçamento. Por isso, o questionamento é legítimo quando o serviço falha. A sensação é de que se paga por algo que não está sendo entregue no momento em que mais se precisa.
Essa discussão, no entanto, precisa ser feita com maturidade. O pagamento da conta garante a operação de um sistema existente, mas não cria, por si só, novas fontes de água, novos reservatórios ou maior capacidade de distribuição. Sem investimentos estruturais contínuos, planejamento de longo prazo e expansão real da infraestrutura, o problema tende a se repetir todos os anos.
Algumas cidades já começaram a testar soluções emergenciais, como a reorganização da rede de abastecimento e a setorização da distribuição para reduzir o impacto da falta de água em determinados horários. Essas medidas ajudam a amenizar o problema, mas não resolvem a causa.
A solução passa por planejamento urbano sério, investimentos contínuos em infraestrutura, redução de perdas nos sistemas, ampliação de reservatórios, diversificação de fontes e uso mais consciente dos recursos, especialmente nos períodos de alta ocupação. Também passa por decisões mais responsáveis na aprovação de novos empreendimentos e na ocupação do solo.
Garantir água e energia em cidades turísticas não é luxo nem favor. É condição básica para a qualidade de vida da população e para a própria sustentabilidade econômica desses municípios. Enquanto essa realidade não for enfrentada de forma técnica e responsável, o ciclo seguirá o mesmo a cada verão: cidades cheias, sistemas no limite, água e energia faltando e contas chegando normalmente.