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Crescimento sem pessoas: o risco silencioso da escassez de mão de obra no Espírito Santo

Publicado em: 03/02/2026

Por Douglas Hintz, Founder da Blue Consultoria e Assessoria Empresarial

 

O Espírito Santo vive um momento singular da sua história econômica. O estado tem se destacado nacionalmente por indicadores que poucos conseguem sustentar ao mesmo tempo: é líder em transparência e governança pública, ocupa o 1º lugar do Brasil em porcentagem de investimentos em ciência e tecnologia e foi o primeiro estado a alcançar 100% dos municípios com licenciamento ambiental. São marcos que revelam organização, visão de longo prazo e ambiente favorável ao desenvolvimento.

Entretanto, por trás desses avanços, cresce um problema silencioso e preocupante: a dificuldade de contratação de mão de obra, especialmente no norte do estado. Empresas têm vagas abertas, investimentos projetados e operações comprometidas por um fator básico a ausência de pessoas disponíveis e preparadas para trabalhar.

Um dos fatores que merece reflexão é a alta dependência de auxílios governamentais dentro do núcleo familiar. Em muitos lares, o benefício tornou-se parte essencial do orçamento doméstico. O ponto central não está na perda do auxílio ao optar pelo trabalho formal, mas na comparação direta entre esforço e retorno financeiro.

Quando salários ofertados se aproximam do valor do benefício recebido, o trabalhador se depara com uma escolha racional: assumir uma jornada de 44 horas semanais, com custos de transporte, alimentação e desgaste físico, ou manter uma renda semelhante sem essa carga de esforço. Nessa equação, o trabalho formal deixa de ser visto como avanço e passa a ser percebido como desvantagem.

Outro fator que aprofunda o problema é a falta de qualificação da mão de obra, inclusive em funções básicas, como vendas e atendimento ao público. Empresários relatam dificuldade em encontrar profissionais com habilidades mínimas de comunicação, postura e entendimento de processos simples. O acesso à capacitação ainda é restrito. Com exceção de instituições como o SENAC, reconhecido, porém pago, poucas pessoas têm acesso a formação prática e acessível. O resultado é um ciclo vicioso: pessoas não procuram emprego por não se sentirem capacitadas, enquanto empresas não contratam por não encontrarem profissionais preparados.

Esse cenário se torna ainda mais preocupante quando observamos o potencial econômico em curso no estado. A capital Vitória figura entre as cidades com o metro quadrado mais valorizado do Brasil, reflexo direto de crescimento, demanda e confiança do mercado imobiliário. No campo industrial, o Espírito Santo foi escolhido para receber a segunda fábrica da GWM (Great Wall Motor), gigante chinesa do setor automotivo, com previsão de instalação no norte do estado, aproveitando a infraestrutura logística, portuária e rodoviária. Trata-se de um projeto histórico, com impacto direto na geração de empregos, renda e desenvolvimento regional.

O paradoxo é evidente: o estado atrai investimentos, mas não consegue suprir sua principal engrenagem as pessoas.

Auxílios sociais são fundamentais e cumprem papel essencial na proteção das famílias em situação de vulnerabilidade. O problema surge quando o benefício deixa de ser ponte e passa a ser destino. Quando não existem políticas eficazes de transição, incentivo à qualificação e estímulo progressivo à autonomia, o sistema começa a travar exatamente no momento em que o estado mais precisa avançar.

O Espírito Santo construiu um ambiente favorável ao crescimento. Agora, o desafio é garantir que esse crescimento seja sustentado por mão de obra disponível, capacitada e valorizada. Isso exige repensar salários, ampliar o acesso à qualificação, criar modelos de transição entre benefício e trabalho e alinhar políticas públicas à realidade produtiva.

Crescimento sem pessoas não se sustenta. E ignorar a escassez de mão de obra hoje é comprometer o futuro econômico de um estado que já mostrou que sabe planejar, mas que agora precisa garantir quem execute.

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